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Black is beautiful! (Minha viagem de Ford a Denzel)

Luiz Carlos Merten

01 Março 2017 | 07h59

Ainda não vi O.J. – Made in America, que venceu o Oscar de documentário. Talvez até venha a concordar que o prêmio foi merecido, mas, por enquanto, estou manifestando minha inconformidade. Gosto demais de Eu não Sou Seu Negro, como gostei demais da ficção O Jovem Karl Marx e os dois filmes de Raoul Peck estavam em diferentes seções da Berlinale, fora de concurso. Logo no começo de I Am not Your Negro, que se inspira numa obra incompleta de James Baldwin, o escritor dá uma entrevista na TV e se exaspera com o que não deixa de ser o racismo velado do apresentador, muito simpático, mas que cobra dele uma tomada de posição sobre os negros que estão se mobilizando e tumultuando a ‘América’ com sua luta por direitos. Baldwin é incisivo. Diz que, se um branco luta por liberdade, está no seu direito, mas o negro é subversivo. (No Brasil de hoje, meio século depois, é a mesma coisa. Basta ver o comportamento da polícia de Geraldo Alckmin – se é negro, já é suspeito.) A cena de Baldwin meio que se repete quando a garota, que depois será morta, cobra do ministro da Justiça de John Kennedy, o irmão do presidente, Bobby – que também será assassinado -, um comprometimento maior com a luta dos afro-americanos. Ele é evasivo, pede calma e diz que, dentro de uns 40 anos, teremos, quem sabe, um presidente negro. Talvez tenham sido quase 50, mas houve Barack Obama, exatamente como neste 2017 o Oscar deixou de ser so white e virou uma celebração do black talent. Miscigenação – dois negros coadjuvantes (Mahershala Ali e Viola Davis, por Moonlight – Sob a Luz do Luar e Um Limite entre Nós) e dois protagonistas brancos (Casey Affleck e Emma Stone, por Manchester à Beira-Mar e La La Land). O Oscar so black não foi representado só pelos vencedores (Moonlight, O.J. – Made in America e Um Limite entre Nós), mas também por Estrelas além do Tempo, que não ganhou mas é melhor, como cinema, que a adaptação da peça de August Wilson por Denzel Washington. Fences, Um Limite entre Nós, estreia nesta quinta, 2 – amanhã. Hoje, 1.º de março, em algum momento passa na TV paga, no Telecine Cult, o clássico de John Ford, Vinhas da Ira, baseado no romance de John Steinbeck sobre a saga da família Joad. Nômades e pobres, os Joads atravessam os EUA durante os duros anos da depressão econômica, sonhando com uma vida melhor na ensolarada Califórnia. Vinhas da Ira ganhou os Oscars de direção (Ford) e atriz coadjuvante (Jane Darwell, como a matriarca, Ma Joad), mas não o de melhor filme de 1940, que foi para Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, uma produção de David Selznick, que no ano anterior fizera a rapa no prêmio com …E o Vento Levou. Cinicamente, se poderia dizer que foram necessários quase 80 anos para que a saga da família negra de Denzel, como a dos brancos pobres de Ford, chegasse à tela, mas não seria exato. Em 1961, também baseado numa peça, Daniel Petrie fez um filme muito importante para a época – O Sol Tornará a Brilhar/A Raisin in the Sun. Os críticos também disseram que era teatro filmado, mas aquela crônica de uma família negra, que sonha com uma vida melhor e mais digna, no alvorecer de uma década que seria decisiva para o movimento black dos EUA, até hoje ressoa no meu imaginário graças às interpretações do jovem Sidney Poitier, da Jeanne Moreau negra, Ruby Dee, e de Claudia McNeill. Tão intenso, tão verdadeiro… Havia ali dentro, embutida, essa consciência de ser negro num mundo discriminatório. (A consciência de ser operário em outra família, a de Eles não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman.) Onze anos depois de O Sol Tornará a Brilhar, a crônica de outra família negra – Lágrimas de Esperança, de Martin Ritt -, contada em função do cachorro, Sounder (a Baleia de Hollywood), novamente causou comoção, mas era um branco progressista que conduzia o projeto. Pode-se argumentar que, ao longo de toda a década de 1960, os filmes que retrataram e fizeram avançar a questão dos negros em Hollywood foram obras de brancos – Uma Voz nas Sombras/Lillies of the Fields, de Ralph Nelson, que deu o Oscar de 1963 para Sidney Poitier; Quando Só o Coração Vê, de Guy Green, também com Sidney Poitier; e No Calor da Noite, de Norman Jewison, de 1967, Oscars de filme e ator, para Rod Steiger, que contracenava com… Sidney Poitier. Nenhum desses filmes, por mais decisivos que tenham sido, foram considerados grande cinema, nem In the Heat of the Night, o de Jewison, e eu me pergunto se nós, críticos, às vezes não falhamos, como testemunhas (agentes sociais?) das coisas que ocorrem à nossa volta. Gostei muito de Moonlight e Estrelas Além do Tempo, um pouco menos de Um Limite entre Nós (mas Denzel e Viola, repetindo seus papeis no palco, são gloriosos). Sinto que vou rever muito esses filmes, pelo significado humano, político. Moonlight é grande cinema. Aquela montagem paralela em Estrelas – a negra excluída correndo para salvar a missão espacial – é coisa de louco. E a cena do Denzel com o filho em Um Limite, que apareceu no telão do Oscar, é muito boa. Esse prêmio da Academia foi histórico, não pela gafe (a cagada) monumental mas pelo que revelou de consciência crítica num momento que exige reflexão.