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Bispo!

Luiz Carlos Merten

19 Março 2017 | 09h36

Há quanto tempo conheço João Miguel? Quantas vezes já o entrevistei? O tempo passa e creio que Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, permanece, no meu imaginário, o grande filme brasileiro dos últimos 20 e tantos anos, desde a Retomada. E o Matraga de João Miguel, com direção de Vinicius Coimbra, é, para mim, superior ao de Roberto Santos com Leonardo Villar. Puta filme, puta ator. João sempre me falava do seu desejo de retomar, refazer, reinventar o Bispo – Arthur Bispo do Rosário -, que foi o personagem que o projetou nacionalmente. Andei meio perdido do João. Surpreendi-me quando, na segunda, na reunião de pauta, Leandro cantou a agenda de teatro e disse que o Bispo estava chegando. Fomos ontem, Dib Carneiro e eu. Compramos os que, na internet, eram os últimos lugares, na fila B, na extremidade – 21 e 23. Achei que os lugares talvez não fossem muito bons. Eram ótimos. A montagem…? Esperava mais. Esperava o quê? Temos tido no cinema e no teatro brasileiros sucessivas representações da loucura. Nize, o documentário Holocausto Brasileiro, a peça do Dib, Pulsões. Havíamos visto, na noite anterior, na MIT, Por que o Sr. R Enlouqueceu? O espetáculo alemão baseia-se no imobilismo. Bispo é de um movimento sem fim. Numa fala, o próprio Bispo diz que louco é como colibri, está sempre planando acima do solo. E o Bispo de João Miguel, com texto de Edgard Navarro, diz a que vem. “Estão dizendo que o que faço é arte, mas quem fala não sabe nada. É a minha salvação na Terra.” Texto e montagem concentram-se na maior criação do Bispo, o Manto para vestir no Juízo Final. Achei intenso, mas… De alguma forma permaneci de fora. Havia revisto em Paris Esse Mundo É dos Loucos, a obra-prima de Philippe De Broca. O cabo Alan Bates, saturado da guerra e do mundo, bate à porta do hospício. Nu e com o pássaro (a gaiola) na mão. Botei na cabeça que João deveria ter feito seu Bispo nu, só enrolado no Manto. Dib objetou que, no hospício, o uniforme devia ser obrigatório. Realismo numa peça sobre louco? Holocausto Brasileiro é justamente sobre o aviltamento do humano no sistema manicomial. Imaginava que seria algo como o choque entre a degradação física e a elevação espiritual do Bispo. Não é. O espetáculo é muito limpo, a loucura, muito racional. O cenário, amplo e detalhado, é mais funcional que expressão da mente atormentada. E luz e música me pareceram um tanto arbitrários. Queria ter gostado, mas, como já disse, não ‘entrei’. Não consegui entrar. Os créditos da peça jogam responsabilidade demais sobre João Miguel – direção, dramaturgia e atuação. No final, pensei comigo, o que pode não ser exato, que toda essa responsabilidade poderia e até deveria ter sido compartilhada pelo olhar do outro. Um diretor. Mas é bonito, o esforço é grande e o Bispo… Extraordinário. Se o assunto é salvação, queria colocar meu nome naquele Manto.