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Biografias que desvendam lendas

Luiz Carlos Merten

21 de junho de 2015 | 23h46

Estou de volta. Foi um voo massacrante. Saí do hotel em Los Angeles, ontem, às 8 da manhã e cheguei às 8 de hoje em casa. Só que estava quatro horas atrás e, ao invés de 24 horas – de traslados, aeroportos e voos -, foram 28!  Cheguei, tomei banho e dei uma geral na Virada Cultural, indo a alguns palcos do Centro e terminando a manhã no Cinesesc, que exibia A Fantástica Fábrica de Chocolate, a versão de 1971, de Mel Stuart. Almocei com meu amigo Dib Carneiro., voltei aos palcos do Centro e fui para o jornal, porque tinha matérias, no plural, para a edição de amanhã. Meu voo foi Los Angeles/Cancun e Cancun/São Paulo. A primeira etapa voei Virgin e a segunda, Tam. Reclamo tanto da Tam e da Gol que tenho de ser justo. Nem sei o nome do funcionário da Tam que foi meu anjo da guarda. Tinha pouco mais de uma hora para fazer check-in e embarcar para o Brasil, ao chegar ao México. Minha mala sumiu. Começou uma odisseia. Se não fosse o cara, não teria achado minha mala nem embarcado. Comprei, para Antônio Gonçalves Filho, uma biografia de Peter Finch – ele ama o Domingo Maldito, de John Schlesinger, que valeu ao australiano seu quinto troféu de melhor ator da British Academy. Havia lido em  My Lunches with Orson, o livro com as conversas de Orson Welles e Henry Jaglom, o diretor de Cidadão Kane contar que Finch e Dame Vivien Leigh foram amantes, sob o olhar complacente de ‘Larry’/Laurence Olivier. Li agora outra versão do affair. Vivien sofria de depressão crônica. Volta e meia enlouquecia. Numa festa, pegou uma tesoura e avançou sobre a mulher de Finch, tentando matá-la. Ele era o maior rabo de saia, mas não segurava a onda de seus amores que, em geral, não davam certo. Tirando os casamentos, Finch teve muitos casos com data de validade – três meses. Ao cabo do período, fugia para a casa da mãe, que conheceu adulto porque o pai, alegando adultério, conseguiu sua guarda e o impediu de ver a mãe, ou impediu a mãe de vê-lo por mais de 20 anos. A separação de Vivien foi devastadora para Finch. A eterna Scarlet/Blanche DuBois foi adotada pela mãe de Finch e, até sua morte, sempre que surtava, corria para a casa dela, que a acolhia em seus braços e serenava sua ansiedade. O autor,. Trader Faulkner, também ator, conta o que não sabia. Schlesinger começou a filmar Domingo Maldito com Ian Bannen, mas percebeu que não era o ator para o papel. Finch, com quem havia trabalhado em Longe Desse Insensato Mundo, foi chamado para apagar o incêndio.. ‘Mas não sou gay!’, ele bradou, ao que sua agente retrucou – ‘Ótimo e é por isso que é uma oportunidade rara para você provar que é ator de verdade.’ Comprei também para mim, uma nova biografia de John Wayne. The Life and Legend. O autor, Scott Eyman, escreveu livros sobre Cecil B. de Mille, Louis B. Mayer e John Ford. Uma história entre muitas. Ou melhor – histórias entre muitas. Nunca soube que Frank Capra seria o diretor de O Mundo do Circo, até ser substituído por Henry Hathaway, porque o roteirista Philip Yordan conseguiu convencer o produtor Samuel Bronston de que Capra estava arruinando seu script. Na sequência,. Wayne fez outro filme com Hathaway, o western Os Filhos de Kate Elder. Tudo pronto para o início da rodagem, o Duke chegou para o produtor Hal B. Wallis e disse que estava com o big C – câncer. Como assim? De um dia para o outro, teve de ser internado para tirar do pulmão um tumor do tamanho de uma bola de tênis. Convalescendo em casa, um dia ele ouviu um barulho. Era um ladrão. Wayne pegou em armas e foi atrás do cara, que se escondeu no porão. Localizado pela polícia, foi preso, mas pediu um favor a Wayne – que pagasse o motorista de táxi que havia deixado esperando, enquanto tentava fazer o ‘serviço’ na casa. E Wayne pagou! A vida, a lenda. Scott Eyman dedica seu livro a Harry Carey Jr. Pai (Harry Carey) e filho integraram o elenco de John Ford. A deferência dedicada ao filho foi porque Harry Carey Jr. disse que queria que pusessem em sua lápide. ‘Ele cavalgou com o Duke.’ Essas história podem não significar nada para muita gente, mas enchem minha alma e me permitem acreditar na grandeza humana.