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BH!

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2017 | 15h15

BELO HORIZONTE – Cá estou. Já é praxe, para mim,. Depois da Mostra Aurora, tenho de bater ponto em BH, no Palácio das Artes, que abriga, atualmente, uma retrospectiva de Andrei Tarkovski. Por falar em retrospectiva, começam duas na semana que vem, em São Paulo. Uma, de Andrea Tonacci, na Cinemateca, e outra de Jean Renoir, no CCBB. Vamos ter de falar das duas. Hoje, no café da manhã do hotel, ainda em Tiradentes, encontrei o curador Cleber Eduardo. Conversamos, e comentei com ele os protestos que ouvi contra Corpo Delito,de Paulo Rocha, como filme irresponsável, que fornece munição para os amigos de direitos humanos na causa do sistema penitenciário. En passant, vi algumas críticas a Até o Último Homem, na reder. Assim como foi chamado de antissemita pelo tratamento dado aos judeus em A Paixão de Cristo, Mel Gibson é agora antinipônico. Os japoneses são monstros, os norte-americanos são bonzinhos. Desculpem, mas os gringos não são bonzinhos em Até o Último Homem e, da forma como vejo o filme, é contra eles, os ‘seus’, que Desmond T. Doss/Andrew Garfield tem de travar sua grande guerra. Quanto aos japoneses, os filmes de guerra por volta de 1960 – o monumental A Condição Humana, de Masaki Kobayashi, para mim, o maior diretor da história do cinema do Japão, Fogo na Planície, de Kon Ichikawa etc – documentaram como o Exército do imperador era dividido em castas e como a elite tinha o maior desprezo pelas vidas dos comandados. Não era à toa que, como o terror hoje, o Exército japonês cultivava a figura do ‘kamikaze’, o guerreiro suicida. Bonzinhos, uma ova. Ninguém é bonzinho na guerra. Há uma lógica destruidora nos combates, como bem mostra Luiz Rosemberg Filho no esgrimir dos diálogos entre a artista e o soldado de A Guerra do Paraguay, e por isso gostei do Doss/Garfield de Até o Último Homem, que faz a guerra desarmado, por sua consciência, como o Cristo se entrega aos seus algozes na Paixão. Lembro-me de haver escrito no jornal, não sei se no blog. A empresa produtora de Mel chama-se Icon e o símbolo é um olho. O olho vigilante no rosto destroçado do Cristo, o olho de Doss. O maluco salvou japoneses, retirando-os do campo minado! Entendo o estado do mundo, mas acho que vivemos uma era de cobrança extraordinária. Meu favorito entre todos os filmes da Mostra Aurora deste ano é o de Juliana Antunes, Baronesa, mas como não pude participar do debate – sorry, mas era dia de Oscar -, Cleber me contou como a diretora foi massacrada. Branca, de classe média, como ela ousava falar de faveladas negras? Quando Cleber me falou isso, lembrei-me imediatamente daquela antropóloga com quatro nomes, ou seja, classe dominante total – se ela repudiasse a origem, eliminava logo uns dois -, investindo contra o índio na mesa do debate, tentando impor pra ele seu conceito de índio, como se o cara fosse algum fantasiado de escola de samba. Gente mais sem noção, e o pior é que se acham certos. Em Brasília, como jurado, não pude intervir. Exultei quando Cleber me contou que Camila Pitanga – ela! -, presente ao debate, pediu a palavra para dizer que, como mulher e negra, estava avalizando o discurso de Baronesa. E, enquanto isso, o Gandra diz aqueles absurdos, o Trump acusa o México de lesar os EUA. Estamos, nós, do lado de cá, perdendo o foco e, por isso, eles do lado de lá,. avançam, tanto.