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BH é uma festa

Luiz Carlos Merten

01 de dezembro de 2015 | 09h46

Estive em BH acompanhando os amigos, no fim de semana. Gabriel Villela apresentou A Tempestade numa curta temporada, de sexta a domingo, no Theatro Brasil Vallourec, que era antes um cinema, que não cheguei a conhecer, na Praça Sete. Dib Carneiro e eu fomos, passamos momentos ótimos. Encontrei Silvana Arantes no teatro e foi uma festa. Querida Silvana! Claro que fui ao Palácio das Artes, e descobri que estava rolando o Forum.doc. Encontrei Cristina Amaral – Andrea Tonacci vi só de longe – , Joel Pizzini, Geraldo Veloso. Havia perdido La Mer Larme, o novo Carlos Adriano, na Semana dos Realizadores, no Rio, e o Forum.doc me permitiu assistir, enfim, ao belo filme. Tentei ler, no Estado de Minas, ao pesquisar horários, o texto de Ricardo Calil sobre A Visita, mas só a primeira frase me derrubou. M. Night Shyamalan é um dos mais aplicados, conscienciosos, não lembro o adjetivo, artesãos de Hollywood… Artesão, o Shyamalan? Parei na hora. Ainda não vi A Visita, mas se existe um problema com o Shyamalan é que ele é tão autoral, e tão metafórico na sua autoralidade, que isso, às vezes, ou quase sempre, sepulta o artesão, que seria, segundo Jean-Luc Godard, o funcionário da arte. Há anos que Shyamalan lixa-se para a indústria e para as grandes máquinas que Hollywood ainda lhe oferece – até quando? -, movido pelo desejo crítico e autoral de dar seu testemunho sobre os EUA, a ‘América’. Se ele fosse menos metafórico e mais artesão, preocupado com a narrativa e o público, seus filmes talvez ainda estivessem apresentando os números superlativos de O Sexto Sentido ne Corpo Fechado nas bilheterias, mas não. Imagino, pela sinopse – garotos fazem filminho doméstico numa casa cheia de segredos -, que A Visita retoma a metalinguagem de A Dama da Água, tão incompreendido. E O Último Mestre do Ar, que adorei? O Avatar (título original) de Shyamalan foi um fracasso monumental, ao contrário do de James Cameron, que, como autor, anda bem pobrinho, mas como artesão é espetacular, vejam a diferença. Nem sei por que fiz esse ‘parêntese’. Volto a La Mer Larme. Imagens de arquivo de mar, de ondas. E a música. La mer/qu’on voit danser… Carlos Adriano não apenas potencializa as imagens que repete. Ele desconstrói o som, mostrando a canção de Charles Trenet em diferentes versões, e orquestrações. La Mer e, no final, a lágrima (la larme) pelo companheiro amado, Bernardo. Gostei demais. O programa de curtas do Forum.doc que vi incluiu dois de Lincoln Péricles e Quintal, que havia visto em Cannes, na Quinzaine. Filme dos Outros foi feito por Lincoln com imagens encontradas em cartões de câmeras roubadas. Aluguel: O Filme eu já havia visto na Semana dos Realizadores e é muito forte. A voz e a vez da quebrada. A reunificação pacífica não acontecerá, até porque ‘Geraldo’ continua mandando a polícia bater em estudantes que defendem suas escolas. Quintal me intriga muito. O filme que André Novais de Oliveira fez com seus pais introduz o fantástico no cotidiano de um casal de idosos. Fiquei para o debate e o absurdo daquele fantástico desconcerta as pessoas. Quando resolvi falar, era tarde, O debate acabou. André ‘introduz’ a pornografia e, na ficção, seu pai defende tese na academia sobre bundas e óleos. É a grande subversão de Quintal e o motivo, acredito, para o filme ter sido selecionado para a Quinzena, mas o assunto parece tabu. Todo mundo que falou sobre Quintal não fez a menor referência ao tema. Por que será?