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Bertolucci (2)/Verdi, o melodrama e os temas do herói e do traidor

Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2018 | 08h01

Pode parecer despropositado, nada a ver, mas a morte de Bernardo Bertolucci mexeu muito comigo. Cheguei a chorar. Por ele? Não exatamente, ou não somente. Só quem foi jovem nos anos 1960, quando o mundo se transformava e um ideal revolucionário parecia possível, talvez entenda o que era esperar pelo novo Godard, pelo novo Bertolucci. Os velhos mestres hollywoodianos, qual estrelas cadentes, iam se apagando. John Ford, Raoul Walsh, Howard Hawks. O western dos pioneiros de Ford era substituído pelo convulsivo dos pistoleiros de Sam Peckinpah. Otto Preminger filmava a destruição ontológica dos indivíduos, massacrados no embate com as instituições vitoriosas – Igreja, Exército, Marinha, Política. E havia os italianos. Visconti, Visconti, Visconti. Antonioni, Fellini. Zurlini. Dino Risi. Tenho de admitir que nunca fui rosselliniano de carteirinha. O ‘meu’ Rossellini não era o que desdramatizou o roteiro em Viagem na Itália, mas o que proporcionou a Vittorio De Sica seu maior papel. Il Generale della Rovere, De Crápula a Herói. Sempre fui esse babaca que, impregnado de cinema, de literatura, quis acreditar na grandeza humana. De Sica, colocado naquela cela com integrantes da resistência pelos nazistas, deve ganhar a confiança dos primeiros e obter informações sigilosas. Deve trair a resistência, em suma. Mas o crápula de tal maneira se sente acolhido, ungido como herói, que a máscara cola ao rosto e ele prefere morrer a trair. O tema do herói e do traidor, caro a Jorge Luis Borges, inspirou Rossellini. Inspirou Bertolucci – A Estratégia da Aranha. Será que era nesse Rossellini que Bernardo pensava quando, naquela entrevista, lhe disse que amava Visconti e ele me disse que se sentia mais rosselliniano? Mas, como, se a essência de Luchino, Verdi e o melodrama, impregna toda a sua obra? Verdi, o melodrama e o desejo. Verdi é morto, proclama o rigoleto na abertura de Novecento e por todo o século 20, os 1900, a luta de classes, o choque entre fascistas e a vanguarda campesino/operária, transformado em melodrama operístico, percorre o filme. Rossellini não acreditava na perfeição da arte, mas na imperfeição da vida. Novecento é irregular, desequilibrado nas suas várias partes. Último Tango em Paris, também. Godard, Jean-Pierre Léaud com aquela câmera, invade e desestabiliza a dor visceral de Marlon Brando e, no assustador mundo pós sentimentos, Maria Schneider aceita o acordo. Em vez de amor, sexo – sodomia. Na vida real, a atriz sempre se queixou que teria sido abusada pelo astro e pelo diretor, que a enganaram e ela teria sido sodomizada de verdade, em nome do realismo de cena. A polêmica voltou há alguns anos, quando foram descobertos documentos que confirmariam a denúncia de Maria. Bertolucci abordou os aspectos trágicos da existência. A tragédia o golpéou quando ele ficou paralítico. Seu mais belo filme – perfeito, viscontiano – é O Conformista, baseado em Alberto Moravia, assim como o maior Godard também é baseado em Moravia, O Desprezo. O Primeiro Tango em Paris, Dominique Sanda e Steffania Sandrelli. O herói e o traidor. Não consigo avaliar quão grande foi Bertolucci, só sei que ele me faz evocar uma era de grandes filmes e diretores. Na literatura e no cinema, meus mestres?