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Berlinale (9)/E não é que Bertolucci tinha razão?

Luiz Carlos Merten

13 de fevereiro de 2016 | 14h29

BERLIM – Quem me conhece e acompanha no blog sabe que vou morrer cobrando de Bernardo Bertolucci o fato de haver permitido e, quem sabe, até induzido seu júri de Veneza a outorgar o Leão de Ouro ao documentário de Gianfranco Rosi, Sacro Gra. Estou começando a mudar de opinião. Bertolucci, com sua generosidade de criador, talvez tenha visto primeiro o que estou descobrindo agora com Fuocommare, na competição de Berlim. No ano passado, José Carlos Avellar estava aqui. Sua presença me falta – e até onde descobri ele está enfermo, no Rio. Força, Avellar! No ano passado, e a propósito de O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán, a gente comentava como os júri não sabem o que fazer com documentários. Como reagirá o júri de Meryl Streep a Fuocommare? Como reagirá às 8 horas do novo Lav Diaz, A Lullaby to the Sorrowful Mystery? E, como nós, jornalistas, vamos conseguir ficar vendo um dia inteiro um filme que escapa tanto aos standards da produção dita ‘normal’, industrial? Na coletiva de Fire at Sea, ‘il maestro’ fez uma declaração forte. Comparou a tragédia dos imigrantes ao genocídio dos judeus pelos nazistas. “É uma barbárie tão grande quanto o Holocausto, esses homens, mulheres e crianças que morrem todo dias sob nossos olhos indiferentes.” Já houve, na Mostra, outro filme sobre a ilha de Lampedusa, a meio caminho entre a costa da África e a Sicília. Lampedusa tem sido o porto de muitos barcos e botes, lotados de imigrantes, que se dirigem à Europa. Em suas praias e rochedos, surgem incontáveis cadáveres. Como filmar essa tragédia imensa? Gianfranco Rosi dá voz ao médico que integra o serviço de salvamento e aos próprios imigrantes – da Síria, da Eritréia, da Nigéria, de toda parte. Contam histórias de travessia do deserto, de perseguições pelos Exércitos de várias nações africanas. Sem comida, sem medicamente, sem nada. Gente que bebe a urina para tentar aplacar a sede. E, como co0ntrapónto a toda essa miséria humana, Gianfranco conta também, a história de Samuele, o garoto, nativo da ilha, que aprende atirar com seu bodoque e faz seu rito de passagem brincando de guerra, enquanto há uma guerra de verdade (entre ricos e pobres?). Na coletiva do júri, a presidente Meryl Streep defendeu a inclu8são social. É o tema embutido no documentário de Gianfranco Rosi. Documentário? Só se for nas bordas. O diretor disse que não ‘premeditou’ – será que queria dizer ‘encenou’ – as cenas de Samuele. garoto aprende a falar inglês, vai ao oculista, que detecta seu olho ‘preguiçoso’. Um olho que não trabalha, que não quer ver. Uma metáfora? Impossível não pensar em Louisiana Story, de Robert Flaherty. O grande documentarista queria fazer um filme sobre o petróleoi, mas as grande companhias criavam empecilhos. Ele então filmou as torres de petróleo do ângulo de um garoto que descobre a beleza e violência do pântano, e seu comprometimento. Tem sido sempre assim. Depois de um começo vacilante, a Berlinale deslancha. E, sim, Bertolucci tinha razão. Talvez não no caso específico de Sacro Gra, mas ao antecipar o grande cineasta que Gianfranco Rosi prova ser com Fuocomare.