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Berlinale (8)/A saudade do que ainda estamos vivendo

Luiz Carlos Merten

12 de fevereiro de 2016 | 21h20

BERLIM – Poderosa! Estou falando de Anna Muylaert. Na apresentação de seu novo filme, Mãe Só Há Uma, ela lembrou o prêmio do público que ganhou no ano passado, com Que Horas Elas Volta? Admitiu que vacilou – não ganharia de novo. Por que voltar ao Panorama? Porque ama essa cidade, esse festival. Porque fez muitos amigos. E porque cada filme é uma flor e Mãe é a nova flor que ela oferece a Berlim e ao mundo. Como Curumim, de Marcos Prado, Mãe Só Há Uma inspira-se numa história real, que Anna trata como ficção. Anos atrás, causou espanto a história de Pedrinho, que foi sequestrado, quando bebê, numa maternidade de Brasília. Pedrinho foi criado como filho pela sequestradora. O caso foi descoberto e Pedrinho reintegrado à mãe biológica. A falsa mãe foi presa, mas como mãe é só uma ele permaneceu ligado àquela que o criara, não à que o parira. Pedrinho vira Pierre no filme de Anna. Descoberta sua verdadeira identidade, é reintegrado à família biológica, como Felipe. Na ficção de Anna, Pierre pertence a essa juventude que transita entre gêneros. Pinta as unhas, usa tanga, depila o peito, beija garotos na boca, mas manda ver com as meninas na hora do sexo. A nova família é careta. Pai e mãe tentam moldar o filho ‘transviado’. Numa cena, Pierre, agora Felipe, desespera-se. Acusa os pais biológicos – “Vocês estão me sequestrando de novo!” Sei, não, mas tenho a impressão de que a crítica brasileira não vai gostar tanto de Mãe, preferindo o Que Horas…? Não se trata de fazer comparações. Eu fiquei tocado com o Mãe e a relação dos irmãos me bateu fundo. Joca começa estranhando Pierre/Felipe, até perceber que o outro está vomitando o que reprime, a insatisfação que o consome. A mesma atriz, Dani Patarra, faz as duas mães. Matheus Nachtergaele é o pai repressor e eu sinceramente ainda não aprendi o nome dos garotos. São ótimos, mas o menor é ainda melhor. A sala estava cheia. O aplauso do público foi caloroso. Reencontrei amigos queridos. André Ristum, que me deu conta da morte de Ivan Ísola, há dez dias. Ele está levando para Roma as cinzas do padrasto. André disse uma coisa que me tocou. Que sente falta daquele vozeirão. Eu, que convivi pouco com ele, fiquei com aquela figura barroca diante dos olhos. E a voz, sim, a risada, era forte. Também encontrei Karin Ainouz, que me disse que a mãe dele morreu, em novembro. Karin vai fazer um filme experimental – ele é bom nisso – na Argélia, seguindo a trilha do pai bérbere que hoje vive em Paris. Na sequência, vai filmar em Tóquio. Jantei depois com Orlando Margarido e Elaine Guerini num italiano perto do hotel. Os filmes brasileiros da Berlinale, os amigos, com suas alegrias e tristezas. Me bateu uma euforia. A vida, apesar de tudo, é bela.