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Berlinale! (8)

Luiz Carlos Merten

08 de fevereiro de 2015 | 22h10

BERLIM – Já passa da meia-noite, o que significa que estou escrevendo para vocvês na segunda-feira da Alemanha. Não possom ir dormir sem dar conta do Terrence Malick na competição. Knight of Cups teve sua sessão de imprensa por volta do meio-dia, mas fui entrevistar Benoit Jacquot e emendei com o filme de Ana Muylaert, Que Horas Ela Volta?, cujo título internacional é The Second Mother, A Segunda Mãe. Fiquei perturbado, acho que tem coisas ótimas, mas a Ana sempre me desconcerta e eu vou ter de decantar para avaliar quanto gostei. Vi o Malick na gala, à noite. Gostava dele quando fez Badlands, Terra de Ninguém, com o jovem Martin Sheen e Sissy Spacek. Por falar nela, seu marido, Jack Fisk, é o diretor de arte. Confesso que não tenho muita paciência com Malick. Árvore da Vida, homônimo do Edward Dmytryk de 1958 – com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift -, me pareceu um porre. Malick volta agora com um galho da Árvore. Se antes falava de pai e filho, e uma mãe que intermediava a relação complicada de ambos, agora fala de dois irmãos com o pai. Um dos irmãos é uma celebridade, o que permite a Malick investir contra Hollywood. Ele faz a crítica da sociedade da imagem por meio da imagem. Estetiza a angústia. Eu confesso que me aborreço. Malick tem restilo – um método -, com certeza. A imagem está sempre em movimento e quase não existe diálogos. Não importa – muitas vezes os personagens estão falando e ele corta o soim, principalmente nas cenas que culminam em confronto físico. Há sempre muita narração, tiradas (pseudo)filosóficas. O filme tem muita água, mas é o anti-El Botón de Nácar. Um a zero para Patricio Guzmán, não sei se o júri de Darren Aronofsky vai ter o mesmo sentimento. Christian Bale vaga no deserto, entra mar a dentro. como todo herói de Malick, é um homem atormentado em busca do sentido da vida. A mulher, Cate Blanchet, chora e se lamenta. Michelangelo Antonioni era mais focado quando falava da dificuldade de comunicação do casal moderno. Como o cineasta de Identificação de Uma Mulher, também de Antonioni, Bale anda por lugares ermos e arrasta com ele as mulheres. Sai Cate, entra Natalie Portman. A dor, supostamente, é a mesma, mas eu não sentia nada. O filme divide-se em capítulos. A Lua, A Torre, O Julgamento, A Morte etc. Um monte de gente aparece em participações especiais e ganha crédito (Antônio Banderas, Ryan O’Neal, Freida Pinto). Muita gente bonita. Malick finge ocupar-se da vida interior, mas está de olho na beleza externa. Cate faz algum tipo de médica. Seus pacientes são deformados, mas o momento compaixão dura pouco. Fala-se muito na perfeição e o grande problema de Malick é que, como dizia Billy Wilder, ninguém é perfeito. Assim como existem filmes sobre nada que são tudo, esse é o tudo que a mim, pelo menos, parece nada. Morro de medo que Darren Aronofsky se deixe seduzir e sugestione seu júri. Tinha quase certeza de que ele premiou Kim Ki-duk, Pietà, em Veneza, mas Orlando Margarido me garante que o vencedor, no ano dele, foi o Fausto de Alexandr Sokurov. Como Orlando, além de ter estado lá, resolveu pesquisar, para tirar a teima, vou confiar. Mas, se for, é possível que ouça o canto da sereia das águas de Malick, e não de Guzmán. Ai, que medo! Só para completar – Aronofsky foi casado com Natalie Portman e a dirigiu em Cisne Negro, pelo qual ela ganhou o Oscar. Não sei se isso soma, ou subtrai.

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