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Berlinale (7)/Deus é mulher e seu nome é Petrunya

Luiz Carlos Merten

10 de fevereiro de 2019 | 16h21

BERLIM – Entrevistei a presidente do júri e Mlle. Binoche me disse que respeita a agenda de gênero do festival, mas não está disposta a entrar nessa. Acrescentou que é um júri de 6, incluindo a presidente, e todos os votos têm o mesmo peso. Ela pode discutir, refletir, tentar influenciar, mas, com certeza, seus colegas jurados farão o mesmo. Será um voto no melhor, ou que assim parecer, não tanto a agenda de gênero, mas, quem sabe, a política. As duas me levam ao filme que vi pela manhã. No começo dos anos 1990, na primeira vez que fui a Veneza, tive um choque ao ver Antes da Chuva e joguei todas as minhas fichas dizendo que Milcho Manchevski ia ganhar o Leão de Ouro. Ganhou. Fiquei fascinado pela paisagem da Macedônia, por aquele céu estrelado que o diretor me confessou, anos depois, era um efeito. Reencontrei a Macedônia em God Existis, Her Name Is Petrunya, de Teona Strugar Mitevska. Não exatamente o mosteiro, como no Manchevski, mas a religiosidade. Petrunya é gordinha, virgem, tem 32 anos e é desempregada. A mãe a empurra para uma entrevista de emprego, que não dá certo. O possível patrão, sutilmente, diz que não a queria nem para f… Petrunya volta para casa e atravessa uma celebração religiosa na ponte. Trata-se da caça ao crucifixo. O arcebispo joga a relíquia no rio, um monte de bofes sem camisa salta na água. Impulsivamente, Petrunya os segue e é quem recupera o crucifixo. É chamada de p…, vagabunda. Tradicionalmente, só homens poderiam participar do rito. O caso vai parar na delegacia, Petrunya é detida para investigação, por haver perturbado a ordem pública. Uma repórter fareja a grande matéria, e o caso vai parar também na TV. Entre ataques ao machismo, surge a grande questão – e se Deus fosse mulher? Seu nome seria Petrunya… Após o abuso de padres contra homens – a pedofilia no François Ozon, Grâce à Dieu -, o abuso da Igreja, da polícia, da sociedade contra a mulher. Na atual agenda religiosa brasileira, um filme como esse não poderia ser mais subversivo. Gostei do Ozon, mas gostei mais ainda de Petrunya, cuja atriz, Zorica Nusheva, é uma graça. Algum prêmio terá de sair por aí. O Urso?