As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Berlinale (6)/Decepções, e a boa surpresa da Tunísia

Luiz Carlos Merten

12 de fevereiro de 2016 | 14h53

BERLIM – Emendei hoje três filmes, um atrás do outro. Mal tive tempo de fazer o programa da rádio e comer alguma coisa. Mas vamos por etapas. Vi ontem à noite a sessão avançada de Boris sans Béatrice, o novo filme do canadense Denis Coté, que foi premiado aqui com Vic + Flo Saw a Bear. A história de um egocêntrico, cuja mulher entra em coma e surge um estranho para dizer que ele precisa purgar sua arrogância para que ela retome consciência. Não creio que o filme seja muito bom, mas tem coisas. O ator James Hyndman é muito bom e Coté erotiza o relato por meio das mulheres que vão para a cama com ele. Tem também a mãe, a filha. Às duas Hyndman pergunta se o amam. Denis Lavant, o ator fetiche de Leos Carax, faz o estranho de poderes xamânicos. Achei interessante, bem mais que o novo Jeff Nichols, a história improvável de um garoto que usa óculos protetores e é porque dispõe de poderes especiais. Uma seita, o governo, todos correm atrás do garoto (para usar seus poderes?). Michael Shannon, sempre presente nos filmes do diretor, é o pai. Seu filho não é desse mundo e deve partir. ET? Tomorrowland? Jeff Nichols tem todo direito de fazer o filme que quiser e até de errar. A questão não é por que ele fez Midnight Special (é o título)? A questão é por que o filme foi selecionado? Em nome da política dos autores, que privilegia Jeff Nichols, mesmo que o filme não seja bom? Bem melhor foi o concorrente da Tunísia, Hedi. O título do filme de Mohammad Ben Attia é o nome de seu protagonista masculino, pressionado pela tradição – e pela mãe – a se casar. Hedi não tem vida própria. É teleguiado. E aí acontece, na véspera do casamento, de ele ter de fazer uma viagem de trabalho, descobrir outra mulher, outra possibilidade profissional – adora desenhar – e ser confrontado com a necessidade de tomar uma decisão. Foi o primeiro filme de que realmente gostei na Berlinale deste ano. Um filme sobre perdas e ganhos, sobre a dor e as alegrias da liberdade e sobre a repressão intrínseca de sociedades tradicionais, que asfixiam os indivíduos. Na coletiva do júri, a presidente Meryl Streep tinha falado da força do cinema como possibilidade de entendimento do outro. Hedi é desses filmes. Dou-me conta de que a par da Tunísia, que faz boa figura aqui, a Jordânia tem um filme indicado para o Oscar, que estreia na semana que vem aí no Brasil. Não tem muito a ver, realmente. Um país do Norte da África, outro do Oriente Médio. Mas existem aspectos religiosos que são próximos. E, no limite, são cinematografias pouco conhecidas da gente e nas quais é bom começarmos a prestar atenção