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Berlinale! (7)

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2015 | 21h36

BERLIM – Foi um dia glorioso para a latinidade na Berlinale de 2015. Começou com o guatemalteco Ixcanul, pela manhã, e culminou com o chileno El Botón de Nácar, à noite. Eu já mandava todo mundo embora e dava o Urso de Ouro para Patricio Guzmán, mas é preciso esperar pelos demais concorrentes e pelas escolhas do júri presidido por Darren Aronofsky. Em Veneza, há dois ou três anos, ele premiou Pietà, de Kim Ki-duk, e se for pela mesma linha, procurando algo insólito, desmesurado, não creio que Guzmán tenha muita chance, e além do mais é documentário. Não é o gênero mais apreciado pelos júris, mas Cannes e Veneza já premiaram documentários (Michael Moore e aquele do anel viário de Roma, que só ganharia sobre o meu cadáver). Quatro ou cinco anos depois de A Nostalgia da Luz, Guzmán volta com outro ensaio – estético/poético/político/filosófico. No filme anterior, ele ia ao Atacama, investigar o mistério das luz no deserto mais seco da Terra e documentava as atividades dos que escavam aquela imensidão em busca de desaparecidos – vítimas da brutal ditadura de Augusto Pinochet. No Botão de Nácar, Guzmán começa contando uma história da água, sobre como a vida se originou dela e como as estrelas interferem no ciclo das águas. O Chile é como uma ilha, delimitado de um lado pela cordilheira, de outro pelo oceano (mais de 4 mil km de costas). Comparado a um retângulo, a parte de cima faz fronteira com o deserto, a de baixo com as geleiras. Guzmán investiga os habitantes primitivos da região, índios nômades da água, que navegavam de ilha em ilha. Conta a história de um botão que pertenceu a um índio que viajou o mundo e que desapareceu com sua raça nos massacres promovidos pelos brancos que se apropriaram de suas terras. E logo existe outro botão, que pertenceu a um dos incontáveis – entre 1200 e 1400 – desaparecidos políticos que foram lançados pela ditadura e por seu aliados civis no mar. Uma dessas vítimas voltou e, a partir dela,. Guzmán faz o inventário dos segredos que o mar oculta, mas também expele. A água, o oceano têm memória. Contando uma ou a história da água, ele de novo faz sua reflexão sobre a ditadura de Pinochet, forjada na aliança de setores civis e militares Pátria grande e triste, como diz Pablo Neruda em suas Memórias, Confesso Que Vivi. Já contei aqui como minha ex, Doris Bittencourt, e eu estivemos no Chile, de férias, apenas um mês antes do golpe. Queríamos conhecer o que de longe era a utopia do governo da Unidade Popular. Encontramos um mundo em desintegração. Mas o Chile, como o Uruguai, era uma ilha de civilidade na América do Sul. Nada nos preparava para o horror do que foi o pinochetaço. Voltei ao Chile muitas vezes depois da redemocratização. É um país que amo. Adoro andar por Santiago, por Valparaíso. Na cidade portuária, sinto-me sempre um daqueles personagens (atormentados?) de Joseph Conrad. Por mais que tenha gostado de Ixcanul, gostei mais ainda de El Botón de Nácar. A Mostra ou o Festival do Rio bem poderiam levar ao Brasil o próprio Guzmán. Como cinéfilo e homem político, eu, pelo menos, seria eternamente grato. Quem sabe neste ano, depois do Urso de Ouro? Se é que ele vai ganhar…

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