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Berlinale! (5)

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2015 | 12h51

BERLIM – Assisti hoje pela manhã a uma raridade, um filme da Guatemala, centrado em personagens femininas e na cultura indígena do país. Gostei demais de Yxcanul (Vulcão), de Jayro Bustamante. É um diretor de 37 anos que vive em Paris. Voltou à Guatemala para fazer esse filme que se passa à sombr ade um vulcão, ao qual os maias fazem oferendas. A população guatemalteca é, predominantemente indígena, mas a minoria que fala espanhol é que detém o poder. A trama é centrada em mãe e filha. A mãe faz oferendas a Ixcanul para que a filha tenha um bom casamento e seja fértil. A garota é prometida ao filho do dono da plantação de café, mas se envolve com operário cujo sonho é partir para os EUA. O que os EUA têm de bom, ela pergunta? Casas com jardins, carros, as pessoas falam inglês. E existem dólares. O carinha vai embora, e não a leva. Maria, é seu nome, engravida. A mãe segue com as oferendas até que não é mais possível esconder a barriga. A família vai ser expulsa das terras, a garota toma uma decisão suicida. Quase morre. O relato, que até então é meio místico – e fortemente erótico -, fica mais social. O que ocorreu com o bebê dela no hospital? O fato de a família toda (pai, mãe e filha) só falar maia facilita a exploração do trio, que é enganado. Bustamante filmou com atrizes nativas. Maria é Maria Mercedes Coroy, uma não profissional. Maria Telón, que faz sua mãe, é a única do elenco com experiência de teatro comunitário. Ontem, a sala estava lotada e dezenas de jornalistas ficaram de foras na coletiva de Rainha do Deserto, de Werrner Herzog, não por ele, mas pelos astros de Hollywood – Nicole Kidman, James Franco. Hoje, havia meia sala, mas os aplausos foram mais calorosos. Bustamante e suas atrizes tinham consciência de estar colocando a Guatemala no mapa dos cinéfilos. Só espero que o júri. Mr. Darren Aronofsky, se aperceba disso. Podem até surgir filmes melhores, mas Ixcanul é ótimo, e como tal merece ser lembrado/premiado no sábado que vem.

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