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Berlinale! (4)

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2015 | 12h29

BERLIM – Benoit Jacquot até tentou fugir da raia, não da Claudia, naturalmente. Na coletiva que se seguiu à apresentação de O Diário De Uma Camareira na competição do 65.º festival, um jornalista cobrou dele um posicionamento sobre os graves acontecimentos na França, em janeiro. Ele desconversou, disse quer não tinha ouvido falar. O caras insistiu, lembrou que outros artistas já se posicionaram (contra). Jacquot preferiu falar da consequência, não do fato – o ataque a Charlie Hebdo. Disse que houve uma ação da polícia e, como todas, foi discutível. Ele levou essa mesma visão do fenômeno social ao falar de Celestine, a sua camareira. Lembrou que, no livro de Octave Mirabeau, ela vem de um meio muito pobre. Para fugir dele, só por meio de uma ação criminal. No filme, Celestine une-se a Joseph, o jardineiro aparentemente fiel (submisso?) à classe dominante, mas que rouba dos patrões paras financiar sua campanha de antissemitismo. Se há uma coisa em que Jacquot não acredita é na mobilidade social. Mas ele acredita na mobilidade cênica. Filma por meio de elegantes movimentos de câmera que mantêm o filme em permanente mobilidade. Antes dele, Jean Renoir (com Paulette Goddard) e Luis Buñuel (com Jeanne Moreau) já adaptaram O Diário. A versão de Jacquot é com Léa Seydoux, com quem ele já fez Les Adieux a la Reine e que não veio porque está filmando o novo James Bond. É curioso como o mesmo livro foi adaptado por grandes autores e não se pode falar em ‘refilmagens’. Cada um fez a sua versão. A de Jacquot situa bem o quadro político da França interiorana, no começo do século passado. O diretor lembrou que importantes historiadores situam a origem do moderno antissemitismo no ‘caso Dreyfuss’. Como todo filme delem, há um forte apelo erótico. Celestine, no fundo, talvez siga Joseph porque ele faz o sexo violento que ela precisa para purgar a morte do amante fraco, o jovem tuberculoso para quem trabalhava (e que… Esperem para ver). Duvido que Jacquot vá ganhar, ou mesmo que Léa seja escolhida melhor atriz, mas gostei.

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