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Berlinale (30)/Em defesa de Meryl

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2016 | 18h55

PARIS – Vou dar notícias daqui a pouco do que tenho visto em Paris, e tenho visto bastante coisas. Mas quero voltar à Berlinale para um fecho. Cheguei à França e somente hoje, no Le Monde, encontrei um texto sobre o encerramento do Festival de Berlim. Fiquei indignado. Tudo bem que deve haver uma concorrência Cannes/Berlim. Mesmo dando o desconto, fiquei indignado com o que disse o (en)viado do jornal. Segundo ele, ao premiar Gianfranco Rosi, Fuocoammare, Meryl Streep fez o que se esperava dela. E confirmou-o ao atribuir, com seu júri, o Prêmio Alfred Bauer a Lav Diaz e a A Lullaby to the Sorrowful Mystery. Segundo o jornalista, a Berlinale fez uma aposta no tema das imigrações e até criou um fundo de apoio, exortando os cinéfilos a doarem dinheiro para os necessitados. A Berlinale também arriscou ao colocar um filme de oito horas – oito! – na competição. Ao premiar Gianfranco Rosi e Lav Diaz, Meryl Streep, portanto, estaria apenas agradecendo a Dieter Kosslick pela confiança depositada nela, fazendo-a presidente do júri. Tive um surto Maria do Rosário Caetano. Será por ser mulher que o jornalista se achou no direito de ter sido tão desrespeitoso com Meryl? No ano passado, James Schamus – James quem? – presidiu o júri, havia um monte de concorrentes chineses e um deles ganhou o Urso de Ouro (ainda por cima, o pior) e não me lembro de ter visto esse tipo de reação preconceituosa. É verdade que gostei muito de Fuocoammare e que era um dos meus candidatos ao Urso, com o Danis Tanovic, Mort à Sarajevo, e o Lav Diaz. Depois de muito meditar, até gostaria que Tanovic tivesse bisado seu prêmio da crítica, levando também o Urso de Ouro, mas gostei do resultado e não entendo esse tipo de reação, que me parece pura provocação infantiloide, tipo Folha. O eterno ‘Temos de ser contra’. Como desagravo, fui rever hoje A Escolha de Sofia. A Filmoteca do Quartier Latin exibe uma programação especial dedicada a Meryl e Robert Redford, um pouco como homenagem à presidente do jÚri de Berlim, mas também porque Out of África/Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, vai sair em cópia nova na França. Fazia tempo que não via o filme que Alan J. Pakula adaptou do romance de William Styron. Meryl faz judia polonesa que emigrou para os EUA. Carrega uma culpa que a destroça. No campo de concentração, ela teve de escolher, entre o casal de filhos, o que ia morrer. Meryl ganhou seu primeiro Oscar de atriz – já havia vencido como coadjuvante. A voz, o olhar enevoado, o corpo alquebrado. Grande Meryl, pobre Sofia. E como o próprio Pakula era bom. Ex-produtor – principalmente de Robert Mulligan -, virou o diretor da quebra de confiança (nas relações interpessoais e nas instituições). Pakula deu forma a um sentimento que marcou a ‘América’ nos anos 1970, a década de Watergate e, em seus primeiros anos, da intensificação dos combates no Vietnã.