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Berlinale! (3)

Luiz Carlos Merten

06 de fevereiro de 2015 | 21h59

BERLIM – O dia começou muito bem com o filme de Jafar Panahi, mas depois, pelo menos na competição, foi ribanceira abaixo. Werner Herzog mostrou seu novo filme em concurso, Queen of the Desert, com Nicole Kidman na pele de uma Lawrence da Arábia de saias,  no Oriente Médio do começo do século passado. Gertrude Spell foi uma mulher letrada, uma aventureira, misto de escritora, linguista e diplomata, que exerceu um papel importante de mediadora entre monarquias do Oriente e o Império Britânico. No filme, ela vai para Teerã, vive um grande amor, decepciona-se e decide se consagrar à política. Anos mais tarde, apaixona-se de novo. Numa vida épica, cheia de ação e romance, conhece um certo Lawrence (o da Arábia), mas Herzog, preocupado em mostrar que Gertrude é a tal, minimiza o aporte de El Aurens, o que deve ter feito David Lean e Peter O’Toole revirarem na cova. Esqueça Lawrence da Arábia, o filme clássico – é o que Herzog gostaria. Deve estar brincando. James Franco, que faz um dos amantes, disse na coletiva que é sempre apaixonante ver um mestre arriscar-se. O tipo de personagem obsessivo que sempre atraiu o diretor situava-se nos antípodas do romantismo. Pelo que me lembre, Herzog não tinha uma cena de amor em sua obra – talvez no seu Nosferatu, com Isabelle Adjani e Klaus Kinski. Considerando-se que Robert ‘Crepúsculo’ Pattinson faz Lawrence – o carinha tem topete, é preciso reconhecer -, é até possível que Rainha do Deserto faça sucesso de público, mas de crítica – duvido. Eta, filme ruim. Uma palavrinha sobre Nicole Kidman. Bye-bye, já era. Não virou uma freak como Donatella Versacce, mas o botox tirou-lhe a expressão. Uma atriz com medo de envelhecer, que acha que as rugas não vão lhe acrescentar nada? Eu, hein… A coisa não melhorou nem um pouco com o filme da competição que vi à noite. Victoria dura 2h20. Uma mulher, uma cidade, uma noite, um plano. Victoria vai à balada, encontra uns carinhas que a arrastam para uma situação limite, um assalto a banco, do qual ela será a motorista. Crônica de uma tragédia – de uma morte – anunciada. Desculpem-me. Crônica de uma m… anunciada. O tour de force técnico – o plano único – e a atriz (Lala Costa) podem até ser recompensados pelo júri de Darren Aronofsky, mas se há uma coisa que Victoria não é, e não é mesmo, é bom. O diretor Sebastian Schippe participou do Munich Kammerspiel Ensemble e foi ator de Tom Tykver e Anthony Minghella. Seu longa de estreia, Gigantic, lhe valeu o grande prêmio do cinema alemão, um monte de credenciais que Victoria, para mim, não correspondeu. Dois a um, dois ruins e um bom (o Panahi)? Não, dois a dois. Vi também, no Fórum, Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel. Sorry, Miguel Gomes, mas a dupla responsável pelo maior filme português que Manoel de Oliveira não dirigiu – E Agora, Lembra-me? -, retoma material filmado nos Açores, entre 1999 e 2001. Um documentário sobre a rotina de pescadores e um estilo de vida que, nesses 13 ou 14 anos, foi se extinguindo. Há uma montagem de Rabo de Peixe no YouTube. É o filme antigo, ao qual Pinto e Leonel voltaram, até como forma de prestar tributo a um mundo que só sobrevive nessas imagens. Muito bonito.

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