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Berlinale (3)/Graças a Deus?

Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2019 | 21h07

BERLIM – Nada mais diferente da plácida beleza das paisagens horizontais, a perder de vista, de Ondog que o ritmo alucinado de System Crasher, de Nora Finsgscheidt. A expressão é informal e define essa garota de 9 anos rejeitada pela mãe e que vive em abrigos governamentais, à espera de um lar. Benni vive em guerra com o mundo. Surge a figura do educador. O cinéfilo de carteirinha pensa em François Truffaut (O Garoto Selvagem) e Werner Herzog (O Enigma de Kaspar Hauser). Pensa errado – nem a educação nem o amor aplacam a angústia que corrói a alma da pequena Benni. Ela passa pelo filme dando e tomando porrada. Até os que tentam ajudá-la – o educador – se comprometem, não conseguem. O filme termina em aberto, sem solução, e a própria seleção da Berlinale se contradiz. System Crasher é o anti-The Kindness of Strangers, e muito melhor, acrescente-se. Sejamos honestos. Berlim costuma abrigar uma larguíssima seleção de filmes alemães porque a Alemanha, afinal, como dona da casa, paga a festa. Poucos desses filmes são bons. Os melhores preferem ir para Cannes. Nesse sentido, System Crasher surpreendeu. Ainda tentando me recuperar da porrada – a garota Helena Zengel é excepcional -, emendei a Nora Fingscheidt com o François Ozon. Grace à Dieu, Graças a Deus. Ozon é daqueles diretores que filmam muito, mas não importa o quê. Faz, como já me disse muitas vezes e devo ter repetido aqui, cada filme contra o anterior. Após o thriller erótico/psicológico, ou psicanalítico (O Amante Duplo), ele investe num registro inédito em sua carreira, o filme documentado à Francesco Rosi. A pedofilia na Igreja Católica. Três homens formam uma associação para denunciar o padre que abusou deles. Ele não apenas não nega como conta que confessou aos superiores sua atração irresistível por meninos. Os crimes da Igreja – o silêncio, a cumplicidade. Num estilo quase documentário, e numa mise-en-scène elegante, a câmera sempre se mexendo, Ozon propõe um admirável estudo de personagens. A maioria desses homens constituiu família, tem dinheiro. Um simboliza o desajuste que o abuso provoca, é o que leva a vida mais instável. E outro, ainda, apenas referido no diálogo, assumiu-se como gay, e matou-se. O filme é terrível, e bom. Talvez seja um pouco longo, com seus 137 min, mas o excesso de informações oblige. Ozon, com a cumplicidade de um ótimo elenco, incluindo um de seus atores favoritos, Melvil Poupaud, superou-se, este ano, em Berlim.