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Berlinale (2)/Mais que diversidade, Meryl defende a inclusão

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2016 | 09h58

BERLIM – Começou! Tive hoje uma manhã bem produtiva aqui em Berlim. Participei da entrevista coletiva do júri, e a presidente Meryl Streep correspondeu à expectativa. Na sequência, corri para um hotel de Charlottenstrasse para entrevistar os irmãos Coen. Para isso, assisti antes no Brasil a Hail, Caesar!, Ave, César! Os dois estavam relaxados, divertidos. Vamos por partes. Embora seja uma das atrizes mais premiadas e conhecidas do mundo – e embora já tenha recebido um Urso de Ouro de carreira da Berlinale -, é a primeira vez que a grande Meryl aceita ser jurada, e logo como presidente. “Nunca desempenhei esse papel”, ela admitiu, “mas dirijo minha casa, minha família e tenho alguma experiência em lidar com diversidades.” No ano passado, a ministra da Culturas da Alemanha cobrou do diretor artístico e presidente da Berlinale, Dieter Kosslick, uma maior presença feminina. Não se pode dizer que a presidência de Meryl seja resultado dessa cobrança. Em anos recentes, Tilda Swinton já presidiu o júri de Berlim. O que talvez faça a diferença é uma maior presença das mulheres este ano – com Meryl, são quatro no júri, mais as que dirigem filmes nas diferentes seções. São juradas – a atriz Alba Rohrwacher, a fotógrafa Brigitte Lacombe e a diretora Malgorzata Szumowska. Completam os sete, o crítico do Guardian, Nick James, e os atores Clive Owen e Lars Eidinger. Meryl já disse que pediu a seu júri que não fizesse lição de casa. Nenhuma olhada no catálogo virtual – o físico não existe mais. “Há tanta informação no mundo atual. E, quando não se informa, especula-se. Estamos aqui nessa posição rara de ver filmes de todo o mundo, de diferentes culturas. Nos EUA, os filmes da Berlinale não chegam com frequência, então foi um motivo um pouco egoísta que me fez aceitar (a presidência). Vou poder me exibir para meus amigos, falando de filmes que eles não viram e talvez não verão. Quero ser surpreendida. Será bom para todos nós vermos os filmes sem parti-pris.” Mais que a defesa da diversidade, sua agenda pessoal é a defesa da inclusão. “Todos os gêneros, raças, crenças.” Ao jornalista que lhe pediu que comentasse a ausência de negros no júri – uma óbvia referência à polêmica que atinge o Oscar -, respondeu – “Look at yourselves, Olhem para vocês. Não estou vendo muitos negros (afrodescendentes) na plateia (a imprensa internacional). E, na verdade, somos todos originários da África. Foi lá que tudo começou. Somos todos africanos.” De novo ela admitiu que não sabe muita coisa da cultura chinesa, da africana, do Oriente Médio. “Estou aqui para ver, apreender, descobrir. E estou, estamos abertos. Já interpretei personagens de diversas culturas e, a despeito das diferenças, há sempre algo comum, que é o que nos faz humanos. Sou capaz de ser tocada pela diferença, como qualquer pessoa. E mesmo não conhecendo muito da cultura africana, gostei de Timbuktu (de Abdehrramane Sissako).” Sobre o ato de ‘julgar’, atribuído ao júri, Clive Owen fez a ressalva. “Não estamos aqui como árbitros para dizer quem é o melhor. Estamos na posição privilegiada de escolher pessoas para premiar, sabendo que os prêmios poderão ter um impacto muito grande em suas vidas e carreiras. É uma grande responsabilidade.” A polonesa Malgorzata, premiada com o Urso de Prata de direção no ano passado (por The Body, O Corpo, está estreando no Brasil), que o diga. “Minha vida mudou. Hoje sinto que tenho mais escolhas, mas, como diz Clive, com elas vêm mais responsabilidades.” Meryl fechou a coletiva. “Quero ouvir todo mundo, temos aqui muitas vozes (no júri). O que nos diferencia é que, no limite, eles têm um voto cada, e eu tenho dois.”