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Berlinale (29)/E o Urso consagra a lição do mar de Gianfranco Rosi

Luiz Carlos Merten

20 de fevereiro de 2016 | 18h47

BERLIM – No começo da tarde, na premiação dos júris independentes, sentaram-se à minha frente Gianfranco Rosi e Danis Tanovic. O diretor italiano de Fuocoammare ganhou prêmios importantes (júri ecumênico, Anistia Internacional etc), mas o prestigiado prêmio da crítica (Fipresci) foi para o bósnio Tanovic, por Mort à Sarajevo, que ele adaptou da peça de Bernard-Henri Levy, Hotel Europa. Vi-os cumprimentarem-se, conversar, trocar amabibilidades, mas pensei comigo que Rosi devia estar decepcionado. À noite, no júri oficial – dependente, como brincou o Sr. Berlinale, Dieter Kosslick -, a situação se inverteu. Tanovic ganhou o grande prêmio do júri e Rosi venceu o Urso de Ouro. Esse cara está fazendo história. Em relativamente pouco tempo – três anos -, venceu o Leão de Ouro em Veneza por Sacro Gra e agora o Urso por Fuocoammasre, seu belo documentário sobre a isola (ilha) de Lampedusa, a meio caminho entre a África e a Sicília, que tem acolhido imigrantes cujos barcos superpopulados tentam chegar à Europa. Os naufrágios com mortes são frequentes, mas os habitantes da ilha são generosos. Acolhem os sobreviventes. São pescadores. “Vivem do mar, aceitam o que o mar lhes oferece. Talvez seja a lição que devemos aprender com eles. Acolher os imigrantes com humanidade, não fazer deles indesejáveis”, disse o diretor de Fuocoammare. Gianfranco Rosi está mudando a percepção dos júris de festivais com seus documentários nas bordas. Já escrevi aqui no blog que não gostei de Sacro Gra, mas o novo Gianfranco Rosi eu amei. Era um dos meus favoritos, com Tanovic e, sim, Lav Diaz. Meryl Streep e seu júri não enlouqueceram totalmente, mas parcialmente. Deram o Prêmio Alfred Bauer, destinado a uma obra inovadora, que aponta caminhos, para o autor filipino e seu monumental (pela duração e muito mais ) A Lullaby for the Sorrowful Mystery, com suas oito horas de duração. E a premiação teve momentos emocionantes. Meryl, grande estrela, atriz multipremiada, curvou-se perante a dinamarquesa Trine Dyrholm, ao lhe atribuir o Urso de Prata de melhor interpretação feminina pelo drama The Commune (e dava para perceber as lágrimas do diretor Thomas Vinterberg na plateia). Adorei o prêmio de direção para Mia Hansen-Love (L’Avenir) e também que o tunisiano Mohammed Ben Attia tenha sido duplamente premiado por seu Hedi, que se vocês retornarem no blog verão que foi, no segundo ou terceiro dia, o primeiro filme de que gostei. Ben Attia ganhou o prêmio de melhor filme de diretor estreante e seu ator, Majd Matoura, foi o melhor da Berlinale deste ano. É um garoto. Agradeceu à revolução em seu país pela liberdade de expressão. Saudou os novos tempos de esperança. Gostei do prêmio à melhor contribuição artística para as belas imagens do chinês Crosscurrent. E só acho que o júri tropeçou ao premiar o roteiro de United States of Love, do polonês Tomasz Wasilewski. Não quero levantar suspeitas, mas o jovem Tomasz foi assistente de Malgozata Szumowska, diretora também da Polônia, premiada no ano passado por The Body. Malgozata estava no júri e quero crer que tenha advogado por ele. Talvez tenha sido, na costura da composição dos prêmios, o preço a pagar pelos demais Ursos de que gostei tanto.