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Berlinale (26)/Verdades e mentiras de um iraniano bizarro

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2016 | 22h01

Berlim – Antes de falar dos latinos desta noite, sexta, 19, permitam-me falar do iraniano A Dragon Arrived, de Mani Haghighi. Talvez tenha sido o filme mais ‘weird’ da seleção e um iraniano que não se parece com nenhum outro. Haghighi já participou do Fórum, e quando o entrevistei hoje ele disse que achava que seu novo filme deveria estar nas mesma seção, que contempla o cinema mais experimental – de invenção. Ele não esperava estar na competição, mas é uma coisa que não se recusa. O filme tem valor de advertência. Desconfie das histórias ditas ‘reais’. A de Dragon passa-se nos anos 1960 e nos 80. Em 21 de janeiro de 1965, o primeiro-ministro do regime do Xá foi assassinado em frente ao Parlamento. No dia seguinte, um prisioneiro político enforcou-se – na verdade, foi assassinado e o crime encoberto, como descobre inspetor de polícia chamado a investigar o caso. Ele é ajudado por um geólogo e um técnico de som. Os três desaparecem e reaparecem após a instalação da República dos Aiatolás. A polícia política continuou a mesma, e impune? É o que o filme sugere. A trama envolve uma mala com evidências, muito material de cinema, e o corpo de uma mulher que morreu dando à luz. O próprio Mani Haghighi vira personagem e discute possibilidades. Nada é o que parece ser – é tudo falso, mas parece verdadeiro, dentro dessa ilusão de realidade que o cinema sabe criar tão bem. A metalinguagem não é exatamente uma raridade no cinema do Irã, praticada que foi por Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf. Mas a de A Dragon Arrived é permeada de bizarrices. Ainda estou tentando descobrir o que é o dragão do título, pois os únicos animais em cena são camelos que entram em cenas pontuais – e são, como direi (os bichos), mensageiros dos deuses? Perguntei a Haghighi se ele não teve ou terá problemas com o regime por causa do filme. Ele disse que fez uma sessão para a comunidade cinematográfica em Teerã e seus colegas diretores odiaram. Em contrapartida, as sessões de público que já conseguiu fazer têm sido um sucesso. Os espectadores, principalmente jovens, viajam na grotesquerie e no suspense à Hitchcock. E o filme é só uma diversão, tranquilizou-me. A-hã, me engana que eu gosto. Basta citar Uma Separação de Asghar Farhadi – a deslumbrante Leila Hatami – para lembrar que o cinema iraniano tem atrizes de uma beleza assombrosa. Viadagem à parte, a surpresa de A Dragon é o homem mais bonito da história do cinema do Irã. George Clooney, que abriu a Berlinale deste anos com os Coen (Hail, Caesar!) – e toda aquela gente, homens e mulheres, ficam flertando com ele -, não dá nem pra saída perto de Amir Jadidi. Haghighi concordou que é ‘a very looking guy’ e arriscou que Jadidi está destinado a ser o maior astro do país.