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Berlinale (25)/E o roteiro do vinho é também da vida

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2016 | 15h06

BERLIM – Tem gente que está achando a programação da 66ª Berlinale fraca. Não concordo, porque estou vendo muitos bons filmes – poucos grandes, é verdade, mas a seleção de um festival é sempre representativa do estado das coisas. Temos tido muitas cenas de sexo – hetero, homo. Adorei as de Saint Amour, de Bênoit Delépine e Gustave Kervern, que a Imovision vai distribuir no Brasil. As melhores do festival. Gérard Depardieu, gordo feito um porco – mas feliz consigo mesmo -, troca carícias com uma mulher que não é jovem e, menos ainda, bela. Ficam nus, ela acaricia o sexo dele. Achei aquilo de uma beleza epifânica. O cara tem de ser um p… ator e ter muita confiança em si mesmo para se expor daquele jeito. Ou então já superou tudo isso… Benoit Poelvoorde serve de objeto sexual para uma corretora lésbica que quer provocar ciúme na amante. E o garoto Vincent Lacoste, como um virgem de 24 anos, vive sua primeira noite com uma mulher que tem carinho e compreensão pelas fraquezas dos homens (ao contrário das de United States of Love). Essa mesma mulher faz sexo com Depardieu e Poelvoorde. Fazem um filho a quatro. A quatro! O verdadeiro espírito da comunidade de Thomas Vinterberg talvez esteja aqui. Pode ser que Saint Amour – o título vem de um Beaujolais – no limite venha a ser visto por críticos mais exigentes que eu (estou brincando, claro) como uma das m… de Berlim, mas o filme me colocou num estado de euforia. Os diretores já fizeram Mammouth, com Dépardieu como um velho motoqueiro. Contam agora a história de pai e filho granjeiros que vão a Paris para uma feira rural. Os dois não se dão muito bem, mas alugam um táxi e resolvem partir, fazendo um roteiro do vinho. O motorista é mitômano, o virgem que finge ter mulher e filhos. É, tatatá-tã, o roteiro da vida. Saint Amour integra a competição, mas fora de concurso, como outro filme francês que a Imovision também vai distribuir no Brasil – Nouvelles de la Planète Mars, de Dominik Moll. Ambos me produziram esse efeito ‘jubilatoire’. Os franceses aprenderam a fazer ‘feel good movies’.