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Berlinale (24)/Rindo com Lav Diaz

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2016 | 14h32

BERLIM – Havia muita expectativa pelo concorrente polonês, United States of Love, de Tomasz Wasilewski. Amigos jornalistas que conheço desde que fui a Cracóvia me diziam que não teria para mim. O Urso era deles! Estou colocando no passado, mas considerando-se que o filme conta a história de quatro mulheres durante as transformações ocorridas no começo dos anos 1990, após a fraturas do império soviético, não seria de estranhar se um júri predominantemente feminino votasse nos Estados Unidos do Amor. Quatro mulheres, e não consegui sentir empatia por nenhuma. Wasilewski reza pela cartilha de que de perto ninguém é normal. Ele conta as histórias linearmente, uma a uma. A mulher casada louca pelo padre, a profissional que tem um amante, ele quer terminar e ela tem um surto de Glenn Close em Atração Fatal. Só essas duas consomem, mais de uma hora e, aí, Wasilewski soma as duas restantes na história final, com pouco mais de meia-hora. Uma velha aposentada compulsoriamemte que quer sair do armário e se engraça com a vizinha, que, enquanto isso, posa para um fotógrafo de moda. Já estava achando meia boca, mas quando o cara se masturba e ejacula sobre a mulher adormecida foi demais para mim como representação… Do quê mesmo? Das perversões da humanidade? Espero que Meryl e suas juradas não façam a loucura de premiar o polonês, por melhores que sejam as atrizes (uma delas, de Isa). Se Meryl enlouquecer, que seja pelo Lav Diaz (veja post anterior). Entrevistei o filipíno no começo da tarde. Brinquei – o cara foi à Mostra, em São Paulo, e eu precisei atravessar o Atlântico e vir à Alemanha para me encontrar com ele. Lav faz esses filmes de oito ou mais horas. Radicaliza o conceito de autoria criando lapsos de tempo e encenando as cenas, isoladamente, como ‘pieces’. No contato pessoal, ele foi caloroso, divertido. Rimos tanto que parecia que eu estava entrevistando um diretor de comédias. Mais um motivo para torcer para que seja recompensado. Emocionei-me quando disse que a descoberta de Lino Brocka foi fundamental para que quisesse fazer cinema, nos anos 1970. Cannes comemorou no ano passado 25 anos da morte do diretor exibindo a versão restaurada de Insiang. Contei da impressão que Insiang me causou, mas Lav disse que Bayan Ko é ainda melhor. Há tantas coisas que não conhecemos. E é incrível, mas em Cannes, com muito mais filmes e entrevistas, consigo ver muito mais a programação de clássicos. Vai ser uma das minhas frustrações deste ano aqui na Berlinale. Justamente por causa da longa duração de A Lullaby for The Sorrowful Mystery, de Lav Diaz, perdi o (Yasujiro) Ozu de Berlin Classics, Early Summer. Mas vejo hoje, depois de El Rei del Once, de Daniel Burman, Fat City, de John Huston. Senão, qual é a graça de estar aqui?