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Berlinale (23)/Meus dois amores

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2017 | 12h47

Já estou em São Paulo, e há alguns dias – desde terça -, mas confesso que cheguei meio baleado. O frio de Berlim sempre me derruba um pouco, mas nem por isso desisto do festival nem da cidade, que amo (os dois). Este ano, com tantos filmes brasileiros, não tive muito tempo de desfrutar Berlim. Faltei até ao nosso tradicional almoço de último dia, naquele restaurante russo. Devia ter ido. O filme nem foi (tão) bom e, de qualquer maneira, iria recuperar Não Devore Meu Coração no Brasil. Mas, enfim, está feito. O que quero deixar claro é que, decantada a experiência do festival – e da premiação -, quero dizer que trago dessa Berlinale dois filmes. Foram os ‘meus’ filmes na Berlinale de 2017. O apaixonante The Lost City of Z, de James Gray, que vocês talvez não acreditem, mas vi três (três!) vezes, e o nouvelle vague On the Beach in the Night Alone, de Hong Sang-soo, que deu a Kim Minhee o prêmio de melhor atriz. Não gostei muito do James Gray quando o vi pela primeira vez – e perdi o final, porque tinha entrevista. Fui (re)ver e siderei, e mesmo assim achei que teria de ver de novo. Como se faz, em 2017, um filme de aventuras que não se assemelha a um filme de aventuras? Como se desconstrói a aventura para filmar o casamento, a família, o afeto? Maravilhoso. Quando ao Hong Sang-soo, foi paixão à primeira vista. Rodrigo Fonseca achou-o o filme mais fraco do festival. Eu estou na contramão. E o curioso é que só, bem depois, soube do detalhe. Achei emocionante, na cerimônia de premiação, o discurso de Kim Minhee agradecendo seu prêmio de interpretação, sob o olhar do diretor, no telão. Não conseguia entender aquele olhar, que não me parecia o de um diretor por sua atriz, simplesmente. Pois descobri depois. Hong Sang-soo é aquele autor sul-coreano que, à maneira de Eric Rohmer, refaz sempre o mesmo filme. Inácio Araújo e Luiz Zanin vão cair do cavalo porque, bem antes que Rohmer morresse, eu já o havia substituído, em meu coração, por Sang-soo. Amo seus personagens, quase sempre artistas, naqueles encontros e desencontros em mesas de bar, regados a muita bebida. Como Woody Allen, Sang-soo tem conseguido fazer um filme por ano, há muitos anos. Em 2015, foi Right Now, Wrong Then, Certo Agora Errado Antes. Durante a filmagem, Sang-soo teve um affair com a atriz Kim Minhee. O caso repercutiu mais na imprensa sensacionalista, por ser o diretor casado, que todos os filmes dele nas páginas de cultura dos jornais sulcoreanos. O affair terminou, mas de alguma forma prossegue na ficção. E, sim, ouso dizer que aquele olhar era apaixonado. Para quem refaz o mesmo filme, Sang-soo não cessa de se reinventar. Estou na redação do Estado, acabo de fazer um destaque de TV para Lisbela e p Prisioneiro, a joia de Guel Arraes. Como diz Lisbela/Débora Falabella, o importante não é o que vai ocorrer, mas como. Isso vale por uma definição sobre o que é o cinema. O de Hong Sang-soo, com certeza.