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Berlinale (23)/Enlouqueça, Meryl!

Luiz Carlos Merten

18 de fevereiro de 2016 | 14h54

BERLIM – A Berlinale propôs hoje a experiência visceral dessa edição. Todo mundo brinca com a duração dos filmes de Lav Diaz. Ele trouxe para a competição A Lullaby for the Sorrowful Mystery, que remete à revolução filipina contra à dominação espanhola, no finalzinho do século 19. O filme dura oito horas, que foram divididas em duas partes de quatro cada, mais um intervalo de uma hora (para esticar as pernas e comer alguma coisa). Começou às 9h30 da manhã e terminou por volta de 5 da tarde daqui (estamos três horas à frente do Brasil). Tenho de admitir que restou em débito com Lasv. Por mais que o filme seja exaustivo, também é fascinante, mas eu tive de sair antes do fim para entrevistar Thomas Vinterberg. Morri na praia, como se diz. Vi cinco horas e pouco das oito. Tenho minhas preferências no festival – Fuocoammare, The Commune, gosto dos franceses, L’Avenir e Quand on a 17 Ans, Danis Tanovic me balançou com seu Hotel Europa (Mort à Sarajevo) -, mas confesso que gostaria que o júri de Meryl Streep desse uma enlouquecida e premiasse Lav Diaz. O filme narra de forma muito elíptica e por meios de quadros artificialmente encenados episódios relativos à figura de um herói nacional, Andrés Bonifácio y Castro, considerado o pai da ‘revolução filipina’. Um grupo, incluindo a viúva do herói, avança pela floresta em busca de seu corpo. Os quadros não apenas evocam a persona mítica de Andrés como a culpa daqueles que se sentem responsáveis a pelo que ocorreu com ele. As belas e elaboradas imagens em preto e branco possuem uma textura muito rica. Criam um passado abstrato e colocam em discussão a mitologia como a grande e a pequena história. Até por sua duração, Lullaby desafia os standards do cinema comercial. No primeiro dia, vocês devem lembrar-se – escrevi aqui -, Meryl evocou um motivo egoísta para ter aceitado a presidência. Como os filmes que passam na Berlinale raramente estreiam nos EUA, ela queria se exibir para os amigos, citando filmes que não viram nem verão. Seguindo o raciocínio, Meryl deveria radicalizar e premiar o óvni da competição. À parte a duração, a provocação e o escambau, Lullaby fica com a gente – ficou comigo. Daí o título do post. Enlouqueça, Meryl!