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Berlinale! (2)

Luiz Carlos Merten

06 de fevereiro de 2015 | 09h09

BERLIM – Minha primeira providência nesta manhã foi comprar um novo mouse, o que melhorou bastante minha vida. Ufa! Na coletiva do júri, um jornalista perguntou ao presidente Darren Aronofsky se sereia possível avaliar com a mesma isenção um filme como o de Jafar Panahi. O iraniano participa da competição com Táxi, feito na clandestinidade e que necessitou de uma rede de apoio para chegar ao festival. Curioso, a primeira pessoa em que pensei vendo o filme foi Leon Cakoff, que colocou o Irã no mapa dos cinéfilos brasileiros. Leon teria amado. O próprio Panahi faz um taxista e seus passageiros perfazem um retrato da sociedade iraniana contemporânea. De cara, entra no táxi coletivo um homem que defende a pena de morte e é interpelado por uma passageira que se identifica como professora. Eles discutem, saem e o passageiro que ficou identifica-se como um fornecedor de DVDs piratas que reconhece Panahi e diz que já serviu ao filho dele no passado. O cara pergunta se o par era de atores, porque assim lhe pareceu. Não há uma resposta formal e o espectador pode ficar na dúvida se são atores ou se Panahi mescla não profissionais. Quanto do filme é encenado? Provavelmente, todo, mas o tom naturalista indica que deve ter havido boa dose de improvisação. Panahi fala de tudo – da Justiça da república dos aiatolás, que o confinou, a esporte (uma garota presa por ir ao estádio), relacionamentos, o cinema, mercado etc. Alguns episódios beiram o surreal – duas idosas que carregam um aquário com peixes. Outros são hilários na sua humanidade – ele tem uma sobrinha, uma garotinha que o interpela, e cobra. Ela está fazendo um vídeo para a escola. Filma o tio famoso e capta flagrantes das ruas. Um garoto que cata lixo e acha dinheiro. Ela o exorta a devolver o dinheiro para quem perdeu. Seria nobre (e bom para o filme). Ele se lixa – precisa do dinheiro para dar ao pai. um acidentado é recolhido e levado ao hospital. In extremis, grava um testemunho para proteger a mulher, impedindo que os irmãos se apropriem de seus bens e a lancem na rua. Não é de hoje que o cinema de Panahi reflete sobre a mulher na sociedade iraniana. Ele retoma conceitos e até situações de seus filmes precedentes. É seu filme menos conceitual (sem deixar de ser) e o mais ficcional de sua fase fase atual. Foi aplaudidíssimo. Por mim, inclusive.

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