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Berlinale (1)/E o Urso está solto!

Luiz Carlos Merten

10 de fevereiro de 2016 | 15h19

BERLIM – Cheguei hoje no fim da manhã daqui, três horas antes no Brasil. Céu azul, sol intenso. Estava cansado do longo voo via Paris, fui tomar banho e quando saí Berlim já se cobrira de cinza para o festival que começa amanhã. mais uma Berlinale, ou menos uma, como diria Mário Peixoto. Nas vias de acesso ao Palast há uma interessante campanha. As peças publicitárias mostram o Urso, ‘The Bear’, saindo do metrô, entrando e saindo de prédios históricos e turísticos. O ‘urso’ toma conta de Berlim. E, em todas as fotos, ele olha para a gente, encara os cinéfilos. Já encontrei amigos da Polônia, da Argentina, de Portugal. Todo mundo cheio de expectativa pelo que vamos ver, e se a 66ª Berlinale vai corresponder. O festival abre-se com o novo filme dos irmãos Coen e, desta vez, Ethan e Joel escrevem, produzem e dirigem. No palácio, a programação do primeiro dia é reduzida. A gala da noite, 19h30, em presença de Ethan. Joel, George Clooney e sei lá quem mais virá. Só. O Palast dava hoje a impressão de ter sido bombardeado e estar em reconstrução. É um monte de gente pintando, ajeitando, colando tecidos, colocando flores. Na sexta, a programação começa para valer com Focuoammare, Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, que já ganhou o Leão de Ouro em Veneza, cortesia de Bernardo Bertolucci, que presidia o júri, com aquele documentário meia boca sobre o anel viário que circunda Roma. Também na sexta teremos Midnight Special, é o título do filme, não da sessão, de Jeff Nichols, e Boris sans Beatrice, de Denis Coté. Na passagem por Paris, comprei no aeroporto Charles de Gaulle, as principais revistas de cinema francesas do mês (fevereiro), só não encontrei Transfuge, a melhor de todas. Positif colocou na capa Leonardo DiCaprio e põe O Regresso nas Nuvens. Cahiers pega uma imagem de Star Wars – O Despertar da Força. De l’Iphone à L’Imax, a revista propõe um dossiê especial sobre câmeras, entrevistando diretores de fotografia, cineastas, engenheiros, fabricantes. Com um pouco menos de entusiasmo, Cahiers também elogia O Regresso, mas a revistas não tem muito apreço por Alejandro González-Iñárritu e numa coisa está coberta de razão. Iñárritu não abre mão daquelas visões oníricas patéticas, inclusive a do final, que remete ao desfecho de Birdman. Havia feito a mesma restrição ao meu colega do Guia do Estado, o Divirta-se – Rafael Abreu – e adorei quando ele disse que Inãrritu é assim mesmo, ‘lazarento’. Mas o que quero acrescentar é que tanto Positif quanto Cahiers citam a gênese de O Regresso em Fúria Selvagem, do ‘grande’ Richard C. Sarafian. Que Positif, como eu, diga isso, não me surpreende, mas Cahiers… Não sabia do seu entusiasmo por ele, mas um dia esse reconhecimento pleno virá, mesmo que seja basicamente por duas obras seminais por volta de 1970 – o citado Man in the Wilderness, com Richard Harris, e o anterior Corrida Contra o Destino/Vanishing Point, com Barry Newman, escrito por Guillermo Caín, isto é, Guiillermo Cabrera Infante. Positif também critica Joy, diz que David O’ Russell é quase sempre supervalorizado, mas, como eu, considera o novo filme o mais complexo e fascinante de sua carreira. Franck Garbarz, que eu não faço a menor ideia quem é, assina a crítica e não faz nenhuma referência ao Oito e Meio de Federico Fellini. Para mim, Joy é a versão feminista do clássico felliniano, não faz mal quer só eu veja. Mas me agrada o elogio de Franck, mesmo tendo feito apenas uma leitura vertical do texto. Retrato da dona de casa como inventora do cotidiano. É o que Joy é – uma subversiva. Positif tem sempre uma seção de atualidades – Présences du Cinema. O próprio Michel Ciment passa janeiro a limpo e assinala que, na terça, dia 8, Sight and Sound publicou o resultado de uma pesquisa feita com 168 críticos de todo o mundo para apontar os dez melhores filmes de 2015. Posso não ser um entusiasta de um e outro, mas gosto de todos, em especial do 1, 3, 4, 5 e 6. 1.The Assassin, de Hou Hsiao-hsien; 2. Carol, Todd Haynes; 3. Mad Max – Estrada da Fúria, George Miller; 4. Mil e Uma Noites, Miguel Gomes; 5. Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul; 6. No Home Movie, Chantal Akerman; 7. 45 anos, Andrew Haigh; 8. O Filho de Saul, Lazlo Nemes; 9. Amy, Asif Kapadia; 10. Vicio Inerente, Paul Thomas Anderson. Ainda em Présences du Cinema, Pascal Binétruy resenha o livro de Philippe Watts, Le Cinéma de Roland Barthes. Ele começa se interrogando se haverás mesmo material para um livro. Textos duros sobre filmes de Elia Kazan e Joseph L. Mankiewicz, um belo estudo do rosto de Greta Garbo, alguns escritos teóricos sobre a semiologia aplicada ao cinema, a busca do famoso terceiro sentido nas reflexões sobre Sergei M. Eisenstein e uma carta a Michelangelo Antonioni. E, ah, sim, Barthes foi ator de André Téchiné (As Irmãs Bronte) e escreveu La Chambre Claire contra o cinema. Coincidência ou não, François Truffaut fez um filme chamado La Chambre Verte/O Quarto Verde e ambos, o livro de um e o filme de outro, são habitados/assombrados pelas fotos de entes queridos e desaparecidos. Mera coincidência? E se Barthes também escreveu O Prazer do Texto, Truffaut escolheu o título de um livro póstumo, e foi O Prazer dos Olhos, sim, senhores. Philippe Watts, professor da Universidade Columbia, faz uma ponte entre os dois que o resenhador, Binétruy, considera tão perigosa quanto sedutora. Teria sido a leitura das Mitologias (de Barthes), em 1957, o ponto de ruptura de Truffaut com a direita hussarda da nouvelle vague. Houve um momento em que, por bravata ou sentimento de provocação à esquerda radical, ele defendia escritores de direita. Salvou-o, convertendo-o, Barthes, seguindo Binétruy. Uma tese deveras interessante. Agora chega. São quase sete da noite, aqui, e vou ver Deadpool, talvez A Garota Dinamarquesa, que estão em cartaz e posso ver em versão original, não dublados em alemão. E, amanhã, a Berlinale!