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Berlinale (19)/O momento Leon Cakoff

Luiz Carlos Merten

17 de fevereiro de 2017 | 21h54

BERLIM – Mais que qualquer outro festival, o de Berlim tem uma ligação muito forte com o público da cidade. Os filmes passam diversas vezes e, com exceção de algumas poucas reservadas à imprensa, são sempre sessões de público. Isso facilita a que eu tenha aqui o que chamo de ‘momentos Leon Cakoff’. O criador da Mostra vivia dizendo que seu sonho era que o espectador da Mostra não se preocupasse em escolher e entrasse em qualquer sessão convencido de que o filme seria bom. Todo ano faço isso aqui em Berlim. Embora os horários vagos sejam reduzidos, sempre sobra algum. Na quarta, fui ao Cinemaxx por volta das 7 da noite, Perguntei que filme estava começando, se tinha lugar? Comprei o ingresso e entrei. Era uma sessão da Berlinale Classics – Schwartzer Kies/Black Gravell, de Helmut Kautner, de 1961. O filme provocou polêmica na época porquew abordava a corrupção na Alemanha do pós-guerra. Numa cena, um velho alemão que vive ouvindo marchas militares briga com o dono do bar e o chama de ‘porco judeu’. Kautner teve de cortar a cena, a UFA mudou o final, sob protestos do diretor. O final orioginal foi conservado e a versão restaurada é a de Kautner. É incrível como toda cinematografia tem esses clássicos desconhecidos. A viúva do ator Helmut Wildt estava na plateia. Mesmo nãso sendo um grande filme, viajei nas imagens que retratam um país, um mundo. O curioso é que Wildt era um Edmund Purdom mais viril. O filme é totalmente noir. Wildt trabalha no transporte de material. Surge do seu passado a mulher fatal, agora casada com um oficial norte-americano sediado na base próxima. Gostei de ter visto Black Gravell. Kautner talvez tenha sido o primeiro diretor alemão importante do pós-guerra. Fez filmes como O General do Diabo, com Curd Jurgens, e A Ponte da Esperança, com Maria Schell, ambos com uma pegada neo-realista bem forte – como Cascalho Negro. Vieram outras imagens, os filmes de Rolf Thiele com Nadja Tiller. O.W. Fischer! Por volta de 1960, a participação dos EUA era muito grande, mas o mercado brasileiro ainda não estava formatado para Hollywood, como hoje. Víamos – eu via – filmes alemães, comédias italianas, melodramas mexicanos, filmes franceses e suecos, que eram os picantes. A Rank trazia a produção inglesa pré-free cinema. Comédias de Norman Wisdom, os policiais de J. Lee Thompson e Basil Dearden, as fantasias (de terror e científicas) de Roy Ward Baker. Safira, a Mulher sem Alma! Tudo isso moldou meu imaginário. Black Gravell/Cascalho Negro foi a madeleine que me trouxe esse tempo perdido. Reencontrado?