As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Berlinale (19)/Ordet!

Luiz Carlos Merten

17 de fevereiro de 2019 | 15h52

BERLIM – Volto na madrugada desta segunda, 18, para o Brasil. Conexão em Amsterdam, voo diurno, espero estar chegando aí no fim da tarde. Como faz sempre, a Berlinale promove no último dia – hoje – a repescagem. Comecei a manhã vendo The Boy Who Harnessed the Wind, escrito, dirigido e interpretado por Chiwetel Ejiofor, com produção da Netflix. O menino que aproveitou o vento. Em Maláwi, no começo dos anos 2000, a grande fome e esse garoto, contra tudo e todos, contra o próprio pai, aproveita a energia do vento para construir windmills, moinhos, e irrigar a terra seca. A quixotada que deu certo. Quando voltar ao Brasil. vou cobrar do povo da Netflix porque, com Ejiofor e Isabel Coixet – Elisa e Marcela também foi produzido pela operadora de streaming – dando entrevistas na Berlinale, não fui credenciado. Pqp. Saí correndo do Palast e emendei com um filme de Berlinale Classics que estava no Cinemaxx, aqui mesmo em Potsdamer Platz. Tenho de acrescentar que, desde que soube que esse filme estava aqui, passou a ser minha prioridade. Ordet/A Palavra, de Carl Theodor Dreyer. Acho que ainda estava nos meus 20 quando, numa viagem com a Doris, assistimos a Ordet na Cinemateca de Buenos Aires. Era muito novo – ou idiota – para conseguir captar a transcendência de Dreyer. Amor, religiosidade e fé. O louquinho da família, que diz que é Jesus Cristo, antecipa que a cunhada vai morrer, mas tranquiliza a sobrinha. Se ela tiver fé, ele conseguirá trazer sua mãe de volta. Todos zombam dele nesse mundo de religiosidade exacerbada na Dinamarca de 1955, onde e quando o filme foi feito, mas nunca fica claro o ano em que se passa – a peça em que Dreyer se baseou é dos anos 1930 e a ambientação rural lembra um pouco o Béla Tárr de O Cavalo de Turim. Tem um relógio que, inexorável, marca o tempo. Tic-tac. Esse relógio pára, mas, quando Joahanes encontra a palavra certa para realizar seu milagre, o tempo volta. A sessão terminou, o público foi esvaziando a sala e eu fiquei ali sentado. Esmagado, aturdido. Nunca é tarde – para aprender? Ordet vai agora para o meu Olimpo pessoal, com Rocco e Seus Irmãos, Hiroshima Meu Amor, Rastros de Ódio, A Primeira Vitória, Vidas Secas, Selva Trágica, O Intrépido General Custer, Rebelião, Morangos Silvestres. Almocei e vim para o hotel, para redigir as matérias que estarão no Caderno 2 de amanhã. Fui de novo ao cinema – The Garden, de Derek Jarman -, peguei um táxi fui prestar minha homenagem a Bruno Ganz, que morreu ontem. Fui ao monumento de Asas do Desejo, com aquele anjo que vela o céu de Berlim. Não preciso nem acrescentar que chorei, menos por Damiel, o anjo que sonha – por amor – ser humano, mas por mim. Tem horas que me sinto sobrando nesse mundo. A seleção de 2019 da Berlinale agudizou essa sensação de horror. Tanta histórias de abusos, mentiras, quebra de confiança, violência. O tempo dos milagres acabou, diz o cético pastor de Ordet, mas Johannes, que crê, faz uma ponte para o amor divino. No cinema, a esperança não morre.