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Berlinale (18)/Elocubrações meio banais sobre o gênio

Luiz Carlos Merten

16 de fevereiro de 2016 | 15h50

BERLIM – Tinha expectativa pelo novo filme de Rafi Pitts, mas me decepcionei com Soy Nero. O filme é sobre um jovem mexicano que tenta atravessar a fronteira para encontrar o irmão em Los Angeles. Seu objetivo é ser um green card soldier, ou seja, alistar-se no Exército dos EUA para ganhar visto de permanência no país. Ele pode se arriscar, mas não é aceito nem pelos colegas. O filme divide-se em duas partes – L.A. e o front. Achei a ‘demonstração’ (da tese?) meio pesada. Também não me convenci muito com Genius, que teve, na sequência, uma das coletivas mais concorridas desta Berlinale. O que fez a diferença, claro, foi o elenco – Colin Firth, Jude Law. A ótima Laura Linney e Guy Pearce foram meros coadjuvantes, como o diretor Michael Grandage. Genius é sobre a relação do escritor Thomas Wolfe com o editor Max Perkins. O gênio do título é o autor ou o editor que o acompanha em todo o processo e submete sua obra a ajustes? Confesso que me aborreci um pouco com as elocubrações do roteiro, e isso por mais interessantes que sejam participações pontuais na trama de Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Max dedica-se a Thom, mas, como diz a mulher do escritor – Nicole Kidman -, cuidado com ele. O artista, Thom, é aquele velho clichê – um monstro egoísta etc. O pobre Max sofre, mas é por uma boa causa – quem sabe uma nova indicação de Colin Firth para o Oscar no ano que vem? O que me aborrece é o fecho, essa necessidade hollywoodiana de solucionar conflitos de egos por meio de gestos de grandeza que eu admirava nos grandes (John Ford, John Ford, John Ford), mas que me cansam agora como meras estratégias de mercado para manter o público ligado no cordão umbilical. Fiz hoje uma ótima entrevista com Doris Dorrie. O novo filme dela, Fukushima, Mon Amour está no Panorama. Doris tem uma ligação profunda com o Japão e transformou a tragédia da radiação provocada pela fissura da usina nuclear no tsunami numa história de dor e memória ligando duas mulheres, uma velha japonesa e uma (mais) jovem européia. O filme é em preto e branco e o ‘Mon Amour’ refere-se a Alain Resnais. Oriente e Ocidente, grandes e pequenas histórias, tragédias individuais e coletivas. Gostei. Éramos dois a entrevistá-la. Uma garota alemã baseada na Inglaterra e eu. Quando lembrei o sucesso de Cherry Blossoms/Cerejeiras em Flor no Brasil e que já a havia entrevistado aqui mesmo, ela me deu um beijo e agradeceu, em português. Obrigado. Por que? “Pelo carinho dos brasileiros.” Por falar em carinho, a revista The Hollywood Reporter lista o melhor da Berlinale – so far, até agora. Três dos meus favoritos – Fuocoammare, L’Avenir e Quand on a 17 Ans -, mais um de que não gostei nada, o Jeff Nichols, Midnight Special. A surpresa é o quinto. THR selecionou, de todas as demais seções, Don’t Call Me Son. É o título internacional de Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert. Poderosa!