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Berlinale (16)/Retrato do Brasil

Luiz Carlos Merten

16 de fevereiro de 2017 | 15h27

BERLIM – Talvez tenha me precipitado ao dizer que No Intenso Agora, de João Moreira Salles, poderia ser o filme brasileiro deste ano, como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, foi o do ano passado. Conversei ontem com Pedro Butcher enquanto esperávamos a sessão de Pendular. Tenho o mesmo sentimento dele, e acho que minha adesão só seria incondicional ao filme se João assumisse que o material que ele encontrou, filmado por ela – que foi tão feliz na China revolucionária de Mao -, faria mais sentido se ele tivesse assumido que ela se matou, e isso com certeza é um choque para um filho, ainda mais um artista sensível. Gostei do filme pelo que revela da mobilização popular e do movimento da ruas, concluindo que não são suficientes, e isso tem tudo a ver com o Brasil atual. O movimento foi útil como ferramenta para derrubar o governo constitucional de Dilma, mas, agora, a conversa é outra. A classe cinematográfica está preocupada com o que vai ocorrer com a Ancine, após a substituição de Manuel Ranbgel, cujo mandato se encerra em abril. Marcelo Gomes leu hoje um documento na coletiva de Joaquim. É a carta dos diretores, cuja versão breve também foi lida no coquetel da embaixada. O Brasil vive uma crise institucional, os direitos civis estão ameaçados, o cinema brasileiro, idem. Marcelo trabalha há um monte de anos no projeto de Joaquim, que lhe foi apresentado por uma TV espanhola, interessada em recuperar ops heróis revolucionários da América Latina. É o mesmo projeto para o qual César Charlone filmou Artigas no Uruguai. Quando lhe acenaram, eler topou, mas só se pudesse fazer o filme com liberdade. Marcelo Gomes sabe que todo filme termina por refletir seu tempo. Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro, é sobre Tiradentes e o Brasil de Médici, de 1972, do Brasil das ditadura cívico-militar. Joaquim tem uma pegada que parece ter sido feito ontem, para colocar na tela o Brasil de 2017. Um jornalista português chegou a ver o ex-presidente Lula na forma como Júlio Machado vive o alferes. Júlio é poderoso. O Brasil já ganhou tanto ouro em Berrelim – dois melhores filmes, três melhores atrizes – um monte de pratas, que bem poderia ser a hora do ator brasileiro, a hora de Júlio Machado. Joaquim é sobre o alferes Joaquim José da Silva Xavier antes de se converter em líder revolucionário. Líder? O filme é sobre a tomada de consciências do alferes, mas é muito mais sobre como ele foi ‘usado’ pela elite do Brasil colonial. Marcelo Gomes estudou as relações sociais da época e concluiu que nelas está a origem da divisão do País de hoje. Tiradentes serve à Coroa portuguesa, sonha com a promooção que lhe permitirá comprar a escrava a quem ama. Ela foge, ele se embrenha do interior der Minmas, em busca de novos veios de ouro. Quicar ficar rico, recuperar a mulher. Os 15 ou 20 minutos finais são gloriosos. Joaquim, reencontra Blackie, agora Zuá, e, num processo muito forte, fica enlouquecido de liberdade, como dizia Tancredo Neves. Suas cenas evocam, siumutaneamente, A Queda do Império Romano, de Anthony Masnn, e Terra em Transe, de Glauber. Numa cena anterior, na travessia de um rio, Tiradentes já explicou o significado da expressão ‘boi de piranha’. É para o que serve. Seus modos à mesa, e o desgosto dos demais comensais, mostram que não é um deles. Muito interessante, sobretudo muito bonito. Talvez não seja um filme de fácil adesão, mas eru gostei muito e adorei o que disse um jornalista turco para outro grego que conheço – very honorable. Marcelo espera lançar o filme em abril, no 21. Só teme que, no clima de polarização existente no Brasil, Joaquim seja atropelado pelo verdadeiro Fla-Flu que lá se instalou. Ele não fez o filme como bandeira, mas Joaquim corre o risco de se transformar numa. E Marecelo prefere apostar no debate, para que mais brasileieiro conheçam nosso país e sua hisíriua. Não é o quer está com caras de ascolntecer.