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Berlinale (13)/O segundo Urso para Julia Jentsch?

Luiz Carlos Merten

14 de fevereiro de 2016 | 16h30

BERLIM – Fiquei o dia todo tentando me lembrar de quando Julia Jentsch ganhou o Silver Bear, Urso de Prata, de interpretação. Foi pelo filme Sophie Scholl, de Marc Rothemund, sobre garota que integrava um grupo de resistência antinazista e foi executada em 1943. Assistia a 24 Weeks, 24 Semanas e pensava comigo que Julia poderá bisar seu prêmio de 2005 (cheguei no hotel e fui checar a data). 24 Semanas, de Anne Zohra-Berrached, é o único filme alemão da competição deste ano. Em geral, Berlim tem três ou quatro (alemães). Uma crise da produção? Da qualidade? Até para honrar o país dono da casa, o júri de Meryl Streep poderá querer premiar o longa de Anne. Mas, se Julia ganhar, ninguém poderá dizer que foi um arranjo, uma conveniência do júri. 24 Semanas é sobre uma stand-up comic que tem uma filha, engravida de novo e começa o drama. Exames preliminares revelam que o bebê, um garoto, é portador da Síndrome de Dawn. Passado o choque inicial, quando o casal começa a se adaptar à ideia (o marido é manager da mulher), novo golpe – o bebê tem má formação ventricular e terá de passar por sucessivas cirurgias, logo após o nascimento, e com o risco que vocês podem imaginar. Julia, a personagem chama-se Astrid, começa a vacilar. A união perfeita com o marido começa a exibir suas fissuras. E, contra a vontade dele, ela decide abortar. O título refere-se, claro, às semanas de gestação. Quase sete meses. O bebê terá de ser morto no ventre da mãe (com uma injeção fatal) e, depois, o parto será induzido. Astrid, que, como comediante, sempre teve a boca larga, vive o drama de silenciar, ou expor sua situação familiar. Há três anos, a diretora mostrou em Perspective Deutsches Kino seu primeiro longa, Two Mothers. Anne Zohra-Berrached é uma mulher de seu tempo. Discute questões como a vida que as mulheres modernas resolvem viver. As escolhas que Astrid faz a lançam num dilema moral. As clínicas são assépticas, ninguém a condena, todo mundo entende – menos, talvez, o marido. Mas a verdade é que não existem soluções fáceis à vista. O filme é bem-feito. Sua dramaturgia é tradicional, não convencional. Cinema narrativo, como quase tudo que temos visto aqui. E, se o júri resolver premiar 24 Semanas, Julia Jentsch pode ser uma ótima escolha, embora o ator que faz o marido, Bjarne Mädel, também seja muito bom.