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Berlinale! (13)

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2015 | 22h35

BERLIM – Acabo de ver 50 Tons de Cinza e confesso que não achei o filme tão horrível, aliás, não achei horrível, como meus colegas. Celso Sabadin diria de novo que me sinto mais confortável na contracorrente do que seguindo o senso comum, e não estaria errado. Em matéria de sexo, então… Lembro-me das reações em Gramado, no ano passado, ao filme de Marcelo Galvão, A Despedida, e aquilo não me parecia coisa de gente dita ‘normal’, mas enfim – havia lido a entrevista da diretora Sam Taylor-Johnson na Hollywood Repórter, mas não me ajudou muito. Já que o tema do livro em que o filme se baseia – e que virou um fenômeno editorial, mais um – é o sexo, e dentro dele o sadomasoquismo, era inevitável que todo mundo falasse com a diretora de filmes como Nove e Meia Semanas de Amor e Último Tango em Paris. Sam disse que (re)viu esses filmes, mas não como referências. Até por estar trabalhando no cinemão, ela (re)viu para avaliar como esses filmes poderiam ser refeitos hoje em dia. Há uma citação direta de Nove e Meia Semanas, a mesma de que Spike Lee já se havia apropriado, aquela coisa de passear com o gelo pelo corpo da mulher para empinar os seios. Não me impressionou muito, embora Dakota Johnson seja linda e Jamie Dornan não seja só o modelo de barriga tanquinho que eu temia. Não li os livros de EL James, e portanto não sei até que ponto o que vou dizer está no meu olhar, ou não, mas tem uma cena em que Christian Grey visita Anastasia Steele em seu quarto, e ela está dormindo. Ele foi adotado. A mãe biológica era uma prostituta que morreu quando ele tinha 4 anos. Ele conta, mas ela não ouve, que se lembra de ‘coisas’. E, depois, precedendo a cena de flagelação que provoca a reação final de Anastasia, ele fala de novo, e é tudo o que ela quer, mas de novo Anastasia está tão perturbada/autocentrada que não ouve o que ele tenta dizer. Está chovendo. A mãe prostituta, a chuva, o segredo do quarto, tudo me lembrou Marnie, de Alfred Hitchcock. Grey seria a versão masculina de Marnie, como a própria Marnie era a versão feminina de Norman Bates (de Psicose). Isso corresponde à realidade ou está no meu imaginário? Confesso que Sam me pegou e eu quero saber porque esse cara é assim. Quando Anastasia lhe pergunta se vai fazer amor com ela, sua resposta é – ‘Não faço amor, eu f… (fuck) e hard. É provável que nunca saiba, e que Sam não faça o 2 e 3, porque trombou com a autora e é muito possível que seja substituída. Por algum homem? O interessante em 50 Tons é que o livro e o filme são obras de mulheres. Diretora, roteirista, produtora, todas mulheres, como a escritora. Mesmo que a visão seja eventualmente edulcorada, eu prestaria, presto, atenção no que essas mulheres estão dizendo. Há um contrato que Anastasia assina com Christian. Estabelece uma relação de poder que ele tenta também fazer comercial. Dá presentes – um carro. Ela também joga pesado e parece inverter o jogo no final. A submissa vai virar dominatrix? Do jeito que vi o filme, Christian usa o sadomasoquismo como máscara. Sua natureza é feminina – submissa? -, apesar do poder, do dinheiro. Sam é artista visual, pintora. Fez um bom filme, o melhor?, sobre John Lennon, Nowhere Boy. Casada com um homem 18 anos mais jovem, teve com ele, aos 40 anos, um monte de filhos, três ou quatro. Sobreviveu a um câncer. O livro de El James é considerado ‘perversão para mamães’. Talvez trabalhando num universo ‘palatável’, Sam tenha tentado fazer uma coisa um pouco mais complexa. Ainda não sabemos quais serão as reações do público, mas as da crítica vão facilitar que seja substituída, como se fosse ‘no one’. Quando Nove e Meia Semanas estourou, não houve um crítico para defender Adrian Lyne, que agora, para desmontar 50 Tons, virou ‘clássico’, como Último Tango. Eu adoraria saber a reação de Bernardo Bertolucci. Tenho certeza de que ele amaria, se já não viu e amou, Dakota Johnson.