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Berlinale (12)/A vibrante rainha da Espanha

Luiz Carlos Merten

13 de fevereiro de 2017 | 22h16

BERLIM – Há um momento de T2 Transpotting em que Spud/Ewan Bremmen, entupido de droga, vai se suicidar. Ele se imagina no alto do prédio, com a cadeira equilibrada ‘on the edge’. Joga-se e a queda é vista de longe, até que Ewan McGregor o acolhe nos braços e o salva. É como se Danny Boyle tivesse de se ausentar do set e, para manter o cronograma da produção, Guy Ritchie resolvesse dar uma mão, dirigindo a cena. Danny Boyle influenciou Ritchie, cuja obra é toda ela uma erstilização do Trainspottging original, e agora o segue, imita, não importa a definição. O cinema canibaliza-se. E eu tenho certeza de que vai haver quem considere T2 grande cinemas. Não eu. Por que estou escrevendo isso? Porque estou em Berlim, e na Berlinale. Sinto uma falta tão grande de José Carlos Avellar. Era aqui, e em Cannes, que trocávamos ideias. Ontem, o jovem Karl Marx, hoje, dia 13, a rainha da Espanha. É umas pena que Penélope Cruz não tenha vindo assistir ao triunfo do seu filme. Ela faz Macarena, uma estrela que construiu sua carreira em Hollywood e agora está de volta à Espanha para fazer um blockbuster, a biografia de Isabel, a Católica. Nos anos 1950, a Espanha realmente sediou produções norte-americanas, substituídas, nos 60, pelo spaghetti western. Ainda eram os anos do franquismo, em que reinava o generalíssimo Francisco Franco, caudilho de Deus pela glória da Espanha (ou vice-versa). Escrevi ontem que o cinema tece a fantasia de quer os esquerdistas são grandes amantes. Macarena morre de desejo pelo assistente de câmera. Ela é Penélope, ele é Chino Darín, filho de Ricardo. Maria do Rosário Caetano vai amá-lo no papel. A cena de sexo não deixa dúvida de que o guapo é do ramo e, na cena seguinte, ele se revela um integrante da resistência a Franco. A história é sobre como esse velho diretor, ex de Macarena, abandona o exílio na França e volta à Espanha (atrás dela?). Mas é preso pelo franquismo e Macarena mobiliza os amigos para resgatá-lo e todo o plano é uma coisa de cinema. No desfecho, aparece o próprio caudilho. Interpela Macarena. Faz ameaças. Ela, a rainha da Espanha… Sem spoiler. Aguardem para ver. Onde mais, se não no cinema, ditadores escrotos são colocados no seu devido lugar? Charles Chaplin, em O Grande Ditador. Já disse que Penélope não veio. Fernando Trueba, o diretor, e Chino subiram ao palco do Friedrich Palast para receber nosso aplauso. Nós, o público. Amo fazer parte desses momentos. Sinto uma euforia. Como poderias imaginar, em Porto Alegre, numa família modesta, mas a quem devo tanto, e com o handicap do defeito físico… Preencham a frase, por favor.

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