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Berlinale (12)

Luiz Carlos Merten

10 de fevereiro de 2015 | 21h52

BERLIM – Me falaram muito mal do novo Wim Wenders, mas fiz ouvidos moucos e resolvi conferir. Ainda bem. Gostei de Every Thing Will Be Fine. É uma frase que Jasmes Franco diz logo no começo para o assustado menininho que carrega nos braços. Ele dirigia seu carro na neve e, de repente, surge aquele trenó. O garotinho parece bem e ele o leva para a mãe. Charlotte Gainsbourg berra feito bicho gritando outro nome, e essa outra criança ficou debaixo do carro. Depois de Anticristo, de Lars Von Trier, Charlotte lida de novo com a dor da perda. O acidente tem um efeito decisivo para Franco. Ele é escritor, amadurece na sua arte, vira celebridade. O filme segue sua vida paralela à de Charlotte, que, como ilustradora não tem o mesmo sucesso. Ao contrário de Knight of Cups, de Terrence Malick, em que Christian Bale é um roteirista destacado de Hollywood, mas nunca o vemos criar nada, Wenders explora bastante a criatividade de seus personagens, a própria dinâmica da atividade de seu trabalho. Vemos James Franco escrevendo, Charlotte desenhando. Wenders já bebeu na fonte negra, contando a história de Ulisses e Telêmaco em Paris, Texas. Volta à tragédia, que se passa em família, mas de alguma forma, por se tratar de uma repetição, trata-a,  segundo o conceito marxista, como farsa. Gostei, mas confesso que terias gostado mais, se não fosse por James Franco. Não tem nada a ver com a capacidade dele de interpretar. O filme cobre mais de dez anos na vida dos personagens. Chega um momento em que eu gostaria que o personagem de Franco tivesse uma cara mais madura, mais marcada, até como forma de entender/viabilizar o que ocorre com ele. E o filme é em 3-D. O diretor gostou da brincadeira em Pina, mas agora a aplica numa história mais intimista, emocional. Saí do Wenders, comi alguma coisa e corri para o programa da competição de curtas, que incluía hoje Mar de Fogo, de Joel Pizzini. antes, encontrei Walter Salles, que acompanhava a segunda sessão de seu admirável documentário sobre Jia Zhangke. Walter me disse que o filme será distribuído pela Videofilmes com o Espaço, de Adhemar Oliveira. A estreia deve ser em abril, ainda sem data, e o pacote inclui a reestreia de quatro filmes de Jia, todos com cópias nova (e 35 mm!). Plataforma, O Mundo, Still Life e Gosto do Pecado – só um será relançado em cópia digital. Revi ontem Um Homem de Fenyang – é ‘um’, não ‘o’, como tenho escrito – no International, um cinema que tem uma tela poderosa, mas fica meio fora de mão. Walter confessou que tem memórias afetivas muito belas do International, como a tela que abrigou Central do Brasil, quando o filme ganhou o Urso de Ouro. Volto a Joel Pizzini. Achei o programa de curtas muito ruim, filmes que imagino que Zita Carvalhosa não fosse selecionar para seu festival internacional, porque teria coisas melhores. Mar de Fogo fez figura de exceção naquela mediocridade. Conversei com algumas pessoas na saída, antes de correr para o hotel, para redigir meus textos para o Caderno 2 de amanhã. Ninguém nunca tinha ouvido falar de Limite, o filme cult de Mário Peixoto que está na origem de Mar de Fogo. Na verdade, o que os jovens queriam saber é se o filme está disponível para download na rede. Limite é o tipo filme de imersão. Não conta propriamente uma história – o público tem de inventá-la -, mas busca estabelecer um elo, um clima. Não creio, sinceramente, que seja programa para curtir no laptop, no celular.