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Berlinale (10)/O choque de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2019 | 22h08

BERLIM – Emendei filmes com a coletiva de Vice e as matérias para a edição do Caderno 2 de amanhã. Estou voltando para o hotel, já passa da meia-noite daqui, portanto já estou na terça-feira. Queria falar sobre os latinos que tenho visto – Temblores, de Jayro Bustamante, da Guatemala; Los Monos, de Alejandro Landes, da Colômbia; e Far from Us, de Verena Kuri e Laura Brierbauer, da Argentina. Bustamante confirma as qualidades e avança sobre Uxmal, que vi em outra Berlinale. Landes cria uma alegoria fortíssima sobre a guerra, com ecos de Clube da Luta, mas transcende a questão do gênero no seu elogio à virilidade. Seus soldados são homens e mulheres, e a guerra é encenada como se estivessem num reality show (brutal) na selva. Tudo isso vai ter de ficar assim, en passant, porque estou em choque depois de ter visto A Rosa Azul de Novalis. Havia gostado de Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre, mas nada me preparava para seu novo filme codirigido com Rodrigo Carneiro. Um impressionante estudo de personagem, com Marcelo Diorio, que abre seu apartamento e seu corpo – seu c… – numa conversa franca sobre aids, homossexualidade e a busca da transcendência. Diorio acredita que, em outras vidas, foi Novalis, poeta romântico alemão que se dedicou à busca de uma mítica rosa azul. O que ela pode significar fica em aberto, mas o filme radicaliza indagações de um cinema homo que já impulsionou Derek Jarmasn, entre outros grandes autores. Não pude deixar de pensar em Sebastian Venable, o poeta de De Repente, no Último Verão, de Tennessee Williams, que Joseph L. Mankiewicz transformou em obra-prima cinematográfica. Sebastian tinha sua visão da crueldade de Deus na praia em que os pássaros bicavam até matar os filhotes de tartaruga que buscavam o mar. Diorio se indaga sobre o sentido da vida e encontra Deus no buraco negro do próprio ânus. Sinceramente, no Brasil que deixou de ser laico, pergunto-me como esse filme será recebido e até me preocupo com a integridade do trio formado pelos diretores e seu personagem (ator). Mas, independentemente disso, tive uma epifania – pela beleza, pela poesia radical – e estou aqui, sem mais palavras. Genial? Sim, entre outras coisas – exibicionista, ousado, brilhante. É preciso tempo para assimilar esse choque, e o interessante é que, num registro completamente diverso, Marcelo Diorio, no meu imaginário, fez uma ponte com Leo, o heterossexual de Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar que, de uma forma muito menos elaborada – culta? – também se indaga sobre o sentido da existência no Marcelo Gomes. Marcelo Diorio, até no nome, tem algo dos personagens emblemáticos de Walter Hugo Khouri – que o cineasta chamava de seu ciclo ‘marcelhal’ -, buscando a ascese no sexo, por mais degradado que fosse. Diorio termina com a evidência do gozo do garoto da internet na sua cara, uma imagem de elevação. Isso vai dar um rebu danado no País dos evangélicos que transformou Alexandre Frota em fiel da balança do governo, o homem que, como aquele filósofo, faz ministros. No outro extremo – binário – do sexo, Leo questiona a economia e a ideologia do trabalho e, hedonisticamente, celebra a delícia do carnaval no mar com a família. São figuras fascinantes, espelhos do Brasil, mas a metafísica do ânus de Marcelo Diorio é ainda mais. Algo fora de série no cinema brasileiro e mundial.