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Berlinale (1)/Meia boca

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2019 | 13h24

BERLIM – Começou, e para falar a verdade foi tudo meio decepcionante. Para a sua despedida, Dieter Kosslick preparou um documento que será assinado no sábado, 9, propondo a igualdade de gênero no festival. O diretor da Berlinale também anunciou que sua última seleção seria um espelho para refletir o estado do mundo. Vamos por partes – os dois principais eventos desta quinta, 7, foram o filme de abertura, The Kindness of Strangers, de Lone Scherfig, e a coletiva do júri. Tomei um choque, e tive de me beliscar para admitir, sim, que aquela era Juliette Binoche, presidente do júri. Em tempos de afirmação feminista, ela veio com uma roupa masculina, cabelo escorrido. Espero que vocês não pensem que o preconceito é meu, mas por que umas das mulheres mais belas do mundo, além de atriz talentosa, precisa ir contra a própria imagem para assumir esse papel? Porque, obviamente, ela estava representando. O discurso foi correto. Quando Dieter a convidou para presidir o júri, disse que não seria por causa do gênero, mas porque queria organizar uma grande seleção e precisaria de uma sensibilidade especial para olhar os títulos selecionados. Vamos nessa. O júri é integrado, entre outros, pelo crítico do The Los Angeles Times, Justin Chang, que também assumiu uma persona e veio representar um papel. No caso, como representante da intelectualidade da Califórnia, ele fez um ‘statement’ de que veio abraçar o cinema do mundo e foi logo dizendo que o melhor filme dos últimos tempos, para ele – e para boa parte da crítica brasileira -, é Burning, Em Chamas, de Lee Chang-dong, que, por sinal, não ficou entre os finalistas do Oscar. Chang não disse nada demais, nem de menos, mas creio que foi a postura – olha eu aqui – que me irritou um pouco. O ‘meu’ jurado terminou sendo Sebastián Lelio, tão natural como na master class que encerrou a retrospectiva de seus filmes no Centro Cultural La Moneda – e eu estava em Santiago naquela noite, em janeiro. Lelio terminou fazendo uma ode a Roma, de Alfonso Cuarón, e ao cinema que, nesse momento, surfa entre plataformas para sobreviver. Desde que começou a filmar, ele disse que ouve que o cinema está em crise, morrendo, mas pela própria experiência acha que nosso paciente terminal é um sobrevivente. E veio o filme de abertura. Dirigido por uma mulher, A Caridade de Estranhos mostra Zoe Kazan que foge do marido policial – e violento – com dois filhos. Vai para Nova York e, em meio à maior dificuldade, num inverno tenebroso, sem ter onde ficar nem o que comer, sobrevive – como o cinema?- graças à bondade das pessoas. Um filme estranho, atemporal. Tem look de época, mas a garotada – os filhos – não desgrudam do copmputador, o que significa que é atual. Com esse espírito generoso, o mundo que se ajuda, Lone Scherfig parece ir contra o espírito da época. Talvez seja a aposta final de Dieter Kosslick, no festival que ele sedimentou como o mais político de todos. The Kindness of Strangers não é realmente bom, ou muito bom, mas tem seus momentos. A expectativa é de que, após o começo morno, a Berlinale ‘climb the mountain’, suba a montanha.