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Berlim (9)/Minha aposta do ano

Luiz Carlos Merten

12 de fevereiro de 2017 | 14h38

BERLIM – Encontrei Eduardo Valente na saída da sessão de No INtenso Agora, ontem à noite, e lhe disse que havias me decepcionado com o filme de João Moreira Salles. Decepcinadeo talvez venha a ficar sempre com João, como as pessoas sempre se decepcionaram com Orson Welles depois de Cidadão Kane. Depois do assim considerado melhor filme de todos os tempos, depois do maior documentário do cinema brasileiro – para mim é Santiago -, é justo cobrar de um arista que se supere sempre? E quem disse que eu gostaria que João supere Santiago? se nuncas cobrei de Luchino Visconti que superasse Rocco nem de Alain Resnais que fizesse algo maior que Hiroshima? Num certo sentido, Santiago é insuperável. A histórias de um homem que tinha tudo contra ele, mas elaborou uma forma de superar as adversidade da vida. Já No Intenso Agora é o inverso, ou quase. Na essência do filme, está a mãe do diretor, essa mulher que tinha tudo – beleza, dinheiro, cultura, afeto -, mas viveu num estado de agonia e terminou por se matar Tive um encontro muito rico com João Moreira Salles nesta manhã berlinense. Abordei esse tema tão espinhoso para um filho. Ele descobriu os filmes amadores que sua mãe fez na China quando trabalhava em Santiago. Com Eduardo Coutinho, a quem No Intenso Agora é dedicado, João aprendeu a desconfiar das imagens e a ler através delas. Na China, em contato com a revolução de Msao, descvobriu nas imagens da mãe uma euforia que ela talvez nunca experimentou antes nem depois. A partir daí, ele começou a elaborar seu filme. Como se sobrevive à paixão? Os jovens do Msaio de 68 em Paris, os resistentes contra os tanques soviéticos em Praga. Minha conversa com João foi pautada por esses temas – como se sobrevive ao amor, ao ardor revolucionário? De uma maneira que me surpreendeu e deixou chapado, o grande personaem do filme de João, afinal de contas, não é a mãe, mas o General De Gaulle, aquele que disse um dia que o Brasil não era/é um País sério. De Gaulle é meio palhaço numa fala no réveillon de 1968, dizendo que será um ano bom, tranquilo para a França. A plateias da Berlinale morreu de rir. Houve o maio, os estudantes quiseram fazer a aliança com os operários, mas esses não quiseram se unir aos futuros patrões. O projeto de revolução esfumou-se – a garota que avalia esse fracaso é demais -, mas então, no réveillon de 1969, De Gaulle, vitorioso em termos, surge como um velho tão cansado quanto lúcido e adverte contra o perigo, que é o tema do filme de João – o vazio. O qwe acontece quando o clamor da truas não é suficiente? É o dilema no Brasil e no muindo, mesmo que João tenha iniciado seu filme em outro contexto. Assim como Aquarius, de Kleber Mendonça, foi o filme brasileiro do sano passado -só aquela comissão babaca do Oscar não captou -, creio que No Intenso Agora será o filme brasileiro de 2017. É minha aposta. E João está preocupado, como qualquer pessoa de bem. Do jeito com,o o circo- nele disse a mesa – está se armado(a), o que se desenha no ar em 2018 e talvez antes, e Deus nos livre, é a solução autoritária