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Berlim (7)/Mulheres!

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2017 | 11h25

BERLIM – Sei que tem gente que quer me matar, e não sei se só metaforicamente, porque o júri que integrava em Brasília, no fim do ano passado, não premiou Martírio. Achei o documentário de Vincent Carelli muito forte, com uma quantidade enorme de informação, mas não creio, honestamente, que seja tão bom – melhor, nem de longe – que Corumbiara, com o qual ele ganhou Gramado, anos atrás E Martírio tem uma coisa que me incomoda muito, as lágrimas do diretor no final. Menos, Carelli. Preferiria que ele tivesse deixado o espaço para nós, o público, chorarmos. Seja como for, Martírio ficou comigo e hoje, aqui em Berlim, lembrei-me muito do filme de Carelli. Como Nossos Paios, o novo lonmga de Laís Bodanzky, programado no Panorama, começa com um encontro familiar. Um almoço. Maria Ribeiro – sua personagem – reclama do marido, Dado, Paulo Vilhena, que lhe parece querer mais salvar a floresta e os índios que o casamento dos dois. Sua mãe libertária toma o partido do genro e o almoço termina com umas revelação que deixa Maria sem chão. Priva-a da própria identidade. Gostei demais de Como Nossos Pais e é curioso que tanto Vazante, de Daniela Thomas, como o filme de Laís tenham estampado na tela da Berlinale, e na mesma sala – Cine Star 3, do Sony Center -, o logo da Globo Filmes. Os críticos reclamam que o cinema brasileiro divide-se hoje entre as ‘globochanchadas’ e o cinema inquieto à Tiradentes, que não tem público, ou atinge um segmento muito reduzido. Laís, mais até que a Daniela de Vazante, representa uma terceira via. cinema humano, comprometido. E muito bem feito. Essas mulheres, sorry, são f… Daniela fala de uma estrutura patriarcal, Laís, de uma nova mu8lher. Maria vacila, tem dúvidas, mas, no final, e apesar das diferenças com a mãe, termina sendo a mulher que Clarice Abujamra gostaria que fosse. Escreve uma peça que começa onde termina Casa de Bonecas, de Ibsen. Nora saiu de casa, e agora? A manhã deste sábado, 11, foi gloriosa pelo que trouxe de contribuição ao debate sobre a questão da mulher, aqui na Berlinale. Na competição, tomei um choque com Felicité, que vi antes de Como Nossos Pais. O longa franco/tedesco/senegalês tem assinatura de Alain Gomisd, nascido em Paris, de pais africanos. Ele volta a Kinshasa para contar a histórias dessa mulher, uma cantora, cujo filho sofre um acidente e é hospitalizado. Quando criança, ela foi dada como morte, mas renasceu no caixão, e por isso ganhou seu nome. Embora a vida de Felicité seja a negação dessa alegria, ela não desiste. É guerreira. Metade do filme é sobre sua via crúcis para conseguir o dinheiro para a operação do filho. Na outra metade, ela tem de lidar com suas diferenças com o garoto, ainda mais revoltado após o que lhe acontece, e com as próprias expectativas como mulher. Maria Ribeiro tem uma frase interessante em Como Nossos Pais. Elas se relaciona com o ‘pai do Henrique’, coleguinha de suas filhas. Felipe Rocha cria um personagem de homem doce e ela diz que é legal conhecer um homem que entende as mulheres. Depois, decepciona-se, mas é outra história. Alain Gomis entende de mulheres e, melhor ainda, entende de cinema para sustentar seu discurso sobre elas. Seu filme tem essa atriz extraordinária cujo nome ainda não gravei. Não me lembro de uma africana ganhar melhor atriz. A de Felicité bem poderia ser a primeira.

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