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Berlim (3)/A noite do meu bem?

Luiz Carlos Merten

10 de fevereiro de 2017 | 16h25

BERLIM – Não pude deixar de pensar em Mandingo, um Richard Fleischer de 1975 (ou 76), ao assistir ao filme de Daniela Thomas que está inaugurando a seção Panorama da Berlinale de 1973. Vi Vazante na sessão de imprensa, à tarde, e depois conversei com Daniela. Admiti meu desconcerto – desconforto? Quanto ao Fleischer, para ser honesto não foi preciso nem ter visto o filme de Daniela. Desde que ela me falou de um antepassado distante que se casou com uma menina, numa fazenda de mineração do interior de Minas, no começo do século 19, o fantasma de Mandingo passou a me assombrar. Estrutura patriarcal, sinhazinha – a menina do filme ainda nem menstruou quando se casa -, a promiscuidade entre senhores e escravos. Sinhazinha tem medo do marido, troca olhares com um escravo jovem, filho da amante que atende às necessidades de seu marido. Bingo! Não é preciso muita imaginação para imaginar o que ocorre. Lembro-me que, na época, há mais de 40 anos, Fleischer foi crucificado e, depois do Che/Causa Perdida, arruinado na montagem pela Fox – mas ninguém se incomoda de que Steven Soderbergh tenha utilizado praticamente o mesmo roteiro, apenas o ampliando um pouco, em sua versão -, nenhum outro filme do diretor foi mais desqualificado que Mandingo. Ambos eram projetos de risco, além de provocações. Filmar a morte do Che, tão pouco tempo depois, e a miscigenação sexual/racial quando ainda fumegavam as barricadas das lutas por direitos… Era preciso culhão, realmente. Vazante é muito bonito no rigor de seu preto e branco, tem um ator excepcional, o português Adriano Carvalho, mas até agora estou dividido. Daniela fez o filme numa perspectiva moderna, para problemas que datam do colonialismo e permanecem irresolvidos no século 21b – as raízes do Brasil. As questões da mulher, dos escravos. Racionalmente, e até por um parti-pris político, deveria ter ficado do lado da menina, do escravo. Emocionalmente, o ator português é tão poderoso, torna seu personagem tão complexo que quando ele dá aquele grito final – esperem para ver -, já estava totalmente do seu lado. Hein, como? Conversei longamente com Daniela sobre suas escolhas – estéticas, morais. O filme começa a sedimentar-se no meu imaginário. Leva jeito de provocar uma bela polêmica no Brasil, embora o País ande tão esquisito que eu já não aposto em mais nada. a escolha mais surpreendente de Daniela, para mim, foi encerrar seu filme com A Noite do Meu Bem, na voz de Tom Zé. Aquela criança é produto dessa noite. Foi um choque parecido com o que me provocou Nate Parker ao embalar as cenas de forca de O Nascimento de Uma Nação com Billie Holiday.