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Berlim (10)/Raoul Peck e o verdadeiro significado de ‘não sou seu negro’

Luiz Carlos Merten

12 de fevereiro de 2017 | 22h09

BERLIM – O festival é, tradicionalmente, o lugar para se discutir as questões dos imigrantes e das mulheres. Este ano, estamos tendo também transgêneros e, claro, os animais. A polonesa Agnieszka Holland, ex-assistente de Andrzej Wajda e diretora de obras tão distintas quanto Filhos da Guerra e O Jardim Secreto, participa da competição com Spoor/Pokot. O filme conta a história de uma ambientalista que vira serial killer matando caçadores para se vingar das agressões à floresta. Tirando o fato de que os ‘vilões’ são caricaturados a ponto de você querer subir na tela para dar cabo deles, o filme é o ó. Agnieszka é diretora fixa da série House of Cards, sobre a qual ouço maravilhas, mas não será depois de Spoor que eu vou querer incursionar pelo universo da TV. Vi outro filme dirigido por mulher, um novelão indiano, Viceroy’s House, que conta a partilha da Índia no Mountbatten Plan. No tempo em que ainda havia comentários no blog, acho que nenhum post provocou tanta reação como um em que eu disse que Gillian Anderson era melhor, digo, a atriz, do que David Duchovny na série Arquivo X. Nunca ouvi tanto desaforo na minha vida. Gillian faz Edwina, a mulher do lorde, mas o centro da história é ocupado pelo casal de jovens forçado a se separar quando o império britânico no Oriente é dividido em dois países – Índia e Paquistão. O filme contas como Mountbgatten e a mulher foram enrolados por Churchill, que cagava para os indianos e só estava interessado em facilitar o acesso dos brits ao petróleo do Oriente Médio. Vice-Roy’s House é suntuoso e acadêmico, mas quando me dei contas estava chorando copiosamente. No final, no letreioro, veio a explicação – a diretora Gorinder Chadra é neta de uma mulher que integrou o legião de deserdados, milhões de pessoas que foram forçadas a deixar a Índia. Famílias inteiras foram dizimadas na estrada, morrendo de fome. A avó sobreviveu e a neta conta essa história de horror em sua homenagem. Qualidade não tem nada a ver com isso, mas me debulhei antes mesmo de ler o letreiro final. Fiz entrevistas, redigi textos e as veio… O Jovem Karl Marx. Raoul Peck! O diretor haitiano que concorre ao Oscar com seu documentário I Am not Your Negro debruça-se sobre a amizade de Kasrl Marx e Friedrich Engels, e de como eles escreveram o Manifesto Comuinistas. O filme de João Moreira Salles No Intendo Agora é sobre o vazio que sucede a embriaguez do sonho revolucionário, quando o clamor das ruas não repica mais. Como viver sem paixão? Raoul Peck não abre mão da dele. Um filme comunistas em 2017! Os conceitos ganham forma e força na tela – a oposição entre proletários e burgueses, a luta de classes. O filme é de cortar o fôlego. E os atores! Marx e Engels não só são jovens e belos como são intensos nas cama com as respectivas mulheres, uma fantasia que o cinema ajudou a sedimentar – esquerdistas trepam melhore. O proletário Marx e o burguês Engels, unidos apesar das diferenças, não só pensaram economicamente a história do homem como criaram um manifesto para canalizar suas aspirações por um mundo melhor. Não sou seu negro – Raoul Peck é o anti-Pai Tomás. Fidel não foi o último comunista. O aplauso demorado que Raoul Peck recebeu é as prova de que, como já dizia Philippe De Brocas, esse mundo é dos loucos, dos sonhadores. Senão, é o vazio, a aalienação consumista que De Gaulle antecipa em No Intenso Agora.