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Bergman, Scola e De Broca. Delícias das salas de arte/ensaio parisienses

Luiz Carlos Merten

07 de fevereiro de 2017 | 22h10

PARIS – Tentei ver hoje Cinquenta Tons Mais Escuros, que entra amanhã na França, mas a sessão era exclusiva para os assinantes do Club Gaumont. Amanhã também entra aqui o novo Martin Scorsese, The Silence, mas não poderei ver nem um nem outro. Embarco pela manhã para Berlim, onde, na quinta, começa o festival. Oi nois aqui traveiz. gostei de Cinquenta Tons de Cinza e fui um defensor solitário do filme de Sam Taylor-Wood, que dialogava de forma muito interessante com Marnie, a obra-prima doente – definição de François Truffaut – de Alfred Hitchcock. Sam é uma figura muito interessante. Casada com um intelectual respeitado na academia, largou o marido quarentão para viver sua louca paixão por um jovem de 20, a metade da idade dela, e depois aquela cretina da Folha, posando de entendida em perversão, disse que o filme era muito papai-mamãe. O ator, Jamie qualquer coisa, era modelo de cuecas da Calvin Klein e ninguém ganha esse posto se não tiver, digamos, um certo volume para preencher a underwear. Não existe nada menos excitante no mundo que sexo explícito. François Truffaut dizia que era um problema estético, mais que moral. Para mostrar o fuque-fuque, a câmera fica ali parada, sem nenhuma imaginação. Há uma cena – breve – de Cinquenta Tons de Cinza em que Jamie vai para cima de Dakota Johnson com a braguilha aberta e Sam, que não era boba, não mostra o volume – procurem nas propagandas de cueca -, mas deixa entrever a ‘carne’. Em Hollywood? Hu-hu. Mas não ponho muita fé na sequência. James Foley, que substitui Sam Taylor-Wood, começou nos anos 1980 com Jovens Sem Rumo, fez um filme que, na época me pareceu muito bom, Sucesso a Qualquer Preço, mas depois alternou séries de TV com os piores (os menos bons) vídeos e filmes de Madonna. Sam, embora vocês duvidem, era uma autora, querendo defender sua visão. James Foley não só dirigiu o 2 como está engatilhando o 3, Cinquenta Tons de Liberdade, ou seja, deve ser muito mais dócil para os produtores. Quando vir eu conto. Quanto a o Silêncio… Faz uma data que não gosto de Scorsese. Posso até vir a gostar desse filme, mas já estou com o pé atrás porque ninguém – nem Mr. Restauro, o próprio Scorsese – fala de um filme japonês que vi muito jovem, e que também tratava da perseguição aos cristãos no Japão, O Cristo de Bronze. Temo que venha a ser um caso parecido com O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, praticamente plagiado de Fúria Selvagem, de Richard C. Sarafian, que era melhor. Enfim, tergiversei. Queria só acrescentar que vi/revi nesta terça, 7, um monte de filmes antigos. Comecei com L’Été de Monica, Mônica e o Desejo, de Ingmasr Bergman, com Harriet Andersson. Em Os Incompreendidos, Jean-Pierre Leaud e o amigo roubam a foto de Harriet no cinema. Acho que foi isso que me fez querer ver o filme (em cópia nova). Harriet é uma loucura, o próprio desejo. Enlouquece o garoto, que nutre a fantasia masculina de que poderá ter aquela mulher só para ele. Monica não nasceu para um homem nem para ser mãe. Quando engana o marido, Bergman – em 1953! -, elimina a quarta parece e faz com que Harriet olhe para a câmera – para o espectador. Não é um olhar de desafio nem de rasiva, mas algo muito mais íntimo e profundo. Sou assim. Acho que foi aquele olhar pára a câmera que seduziu o jovem Jean-Luc Godard. Tenho visto e revisto o trailer de Viver a Vida, que reestreia, também em cópia nova, dia 15. Como a prostituta Naná, Anna Karina olha pára a câmera do mesmo jeito que Harriet Andersson. Na sequência vi La Piu Bela Serata della Mia Vita, um Ettore Scola de 1972, com Alberto Sordi, livremente adaptado de Friedrich Durrenmatt, de cuja existência nem sabia. É um filme contemporâneo de In Nomine del Popolo Italiano, de Dino Risi, com Vittorfio Gassman e Ugo Tognazzi, que é melhor. Sordi vai à Suíça, num affair obscuro – Lava-Jato nele -, segue uma bela mulher na estrada e vai parar num hotel onde velhos juízes aposentados o submetem a um julgamento moral. Os juízes são todos atores franceses – Michel Simon, Charles Vanel, Pierre Brasseur, Claude Dauphin. Sordi é condenado, sua vida vira um pesadelo, mas é só ele descobrir isso para voltar à velha putaria. É legal, mas não um grande Scola. Gostei muito mais de ter revisto Le Roi Du Coeur, Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca, com Alan Bates. Na época do lançamento, na França, foi um fracasso monumental, a ponto de o diretor, que apostava no projeto, ter até pensado em desistir do cinema. O culto começou nas universidades norte-americanas, no pós-68. Vou ter de voltar ao Roi du Coeur. De Broca faz parte do meu panteão com esse filme e O Amante dos Cinco Dias, com Jean Seberg. Outro dia, outra hora. Já passa da uma da manhã aqui e daqui a pouco já estarei indo para o aeroporto. À demain…