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Bergman, de novo e sempre

Luiz Carlos Merten

03 Julho 2015 | 10h29

Nunca me esqueço. No começo dos anos 1970, estávamos casados, Doris e eu. Ainda vivia em Porto Alegre – ela segue lá – e aproveitávamos qualquer feriado para descer para Montevidéu e Buenos Aires. Lembro-me do choque que tive, assistindo em Buenos Aires, a Gritos e Sussurros. Logo em seguida, surgiu a notícia de que a censura do regime militar  exigia cortes no filme de Ingmar Bergman e ameaçava interditá-lo. A cena em que Ingrid Thulin quebra a taça e usa o caco para ferir a própria vagina foi demais para a turma do coturno. Santa mãe! Devem ter visto aquilo como ameaça à família. Em plena campanha por Gritos e Sussurros, Paulo Emílio Salles Gomes foi ministrar não sei que curso ou palestra em Porto e eu, jovem repórter, fui entrevista-lo no hotel. Naquela época, confesso que a gente já saía do jornal com a preocupação de colher condenações bombásticas contra a ditadura, mas o Paulo Emílio não colaborou muito. Não estava nem aí para a proibição do Bergman. Estava mais preocupado em falar sobre algum filme brasileiro pequeno, e nem bom, que estava em cartaz e ele achava que nos representava mais. Fiquei decepcionado, admito, mas aquilo era, na prática, o conceito de Paulo Emílio de que o melhor filme estrangeiro não vale o pior filme brasileiro. Demorei uma vida inteira, 50 anos, para entender e assimilar o significado heroico da frase. (Ontem, na cerimônia de oficialização da primeira lista de contemplados da Spcine, lembrei-me disso.) Mas eu sempre amei Bergman. Não, não é verdade. Quem amava era o P.F. Gastal, o Calvero, na Folha da Manhã e no Correio do Povo, na época em que a Empresa Jornalística Caldas Júnior era a Globo do Rio Grande. Não me lembro qual foi meu primeiro Bergman, acho que foi No Limiar da Vida, e só depois vi Morangos Silvestres, que havia sido feito antes. E aí foi a revelação. Jovem, fã de westerns e policiais, tive um choque com o road-movie existencial de Bergman. O velho professor Isak Borg, e me sinto cada vez mais próximo da máscara de Victor Sjostrom, cai na estrada para receber uma homenagem em outra cidade e, no caminho,. encontra pessoas, mas principalmente encara fantasmas do próprio passado. No desfecho, decifra o enigma de sua vida e vira a cabeça para o lado. Para morrer ou simplesmente dormir? Amo Gritos e Sussurros, as quatro mulheres de branco, naquele jardim,  mas o ‘meu’ Bergman continua sendo Morangos Silvestres, que abre amanhã o Cineclube do Belas Artes. Bergman nasceu e morreu em julho (14 de julho de 1918/30 de julho de 2007), e o Belas Artes o homenageia com cinco filmes, nos cinco finais de semana do mês. A programação começa com Morangos Silvestres (amanhã e quarta-feira) e, depois, deve exibir A Fonte da Donzela, Gritos e Sussurros, O Ovo da Serpente e Da Vida dos Marionetes. Na próxima quinta, O Sétimo Selo volta ao cartaz em cópias nova. Vamos falar muito de Bergman, de novo e sempre. Passado e presente coexistem nas mesmas imagens de Morangos Silvestres. O procedimento não era novo em 1959. (Mais do mesmo?) Outro sueco, Alf Sjoberg, já o utilizara em sua adaptação de Senhorita Júlia, de 1951. Mas Existem em Morangos Silvestres fragmentos que me acompanham e são a minha Bíblia. Acima de tudo, o rosto de Victor Sjostrom (e o sorriso de Bibi Andersson e a gravidade de Ingrid Thulin). Aquilo não é só um filme. É um monumento. De arte e e de vida.