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Bergman – 100 anos

Luiz Carlos Merten

10 Julho 2018 | 23h09

Estamos antecipando amanhã, no Caderno 2, o centenário de Ingmar Bergman. A data exata é no sábado, 14, curiosamente, o dia em que se celebra a Queda da Bastilha, Allons enfant de la patrie… No domingo, 15, a França, muito provavelmente, vencerá a Copa, não importa quem seja classificado amanhã para jogar com ela. A França de Mbappé, enquanto ele estiver correndo e armando jogadas daquele jeito, me parece imbatível. Mas o tema é Bergman. Entrevistei as diretoras de dois filmes sobre ele que estreiam sábado. Jane Magnusson, de Bergman – 100 Anos, nos cinemas. E Manuelle Blanc, de Ingmar Bergman – Por Trás da Máscara, no canal Curta! Fiz a matéria de capa, o abre, mas era pouco espaço para muita entrevisdta. Convidado pelo jornal, Cacá Diegues fez um texto sobre seu Bergman preferido. Escolheu Morangos Silvestres, que seria o meu, o que me obrigou a mudar. Mas não me arrependo de ter escrito sobre Persona. Morangos seria uma escolha subjetiva, que eu teria justificado com critérios estéticos, e muita paixão. Mas Persona é obra única – de transição, mutação, transformação. Se vocês prestarem atenção, há um hiato de três anos na carreira cinematográfica de Bergman, entre 1963 e 66, quando ele lança Persona. Bergman ficou doente, teve tempo de repensar sua vida e o cinema, com as ferramentas da psicanálise. Trocou de mulher, coisa que já havia feito muitas vezes antes – era movido a testosterona -, mas a mulher, dessa vez, era Liv Ullman, que permaneceu amiga e companheira, mesmo muito tempo após a separação. E havia o diretor de fotografia, Sven Nykvist, que mudou o método de Bergman de filmar e, principalmente, iluminar. Duas mulheres numa ilha, Faro. Uma atriz que ficou muda e sua enfermeira. Duas metades que compõem um só rosto. A fissura interior do próprio Bergman, que ao juntar suas metades e decifrar o mistério da própria vida lembra o professor Isak Borg no desfecho de Morangos Silvestres. Tudo isso e o clima de sonho, e pesadelo, que também está em Morangos. Não, não foi uma má escolha ter de escrever sobre Persona. No Brasil, o filme chamou-se Quando Duas Mulheres Pecam. Foi apelação dos distribuidores e exibidores, forçando a aproximação com os jogos de sexo das outras duas mulheres de O Silêncio. Em Persona, as mulheres não pecam, a arte e a política do cinema (o monge budista em chamas na TV) avançam.