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Bem-vindos ao mundo adulto (a boa surpresa de A Garota do Armário)

Luiz Carlos Merten

24 de setembro de 2017 | 09h47

Já era sobre mãe e filha no mercado de trabalho. Bem, não exatamente, mas Copacabana, de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert como mãe cigarra que descobre que a filha se envergonha dela e resolve, tardiamente, ser formiguinha, tinha certo encanto. Isabelle ganhou um monte de prêmios fazendo comédia e o filme, com toda certeza, repercute em Tal Mãe, Tal Filha, de Noémie Saglio, com Juliette Binoche e Camille Cottin, a atriz preferida da diretora, que integrou o Festival Varilux deste ano. Fui ver ontem A Garota do Armário, o novo filme de Fitoussi. De novo entrei no cinema sem saber muito sobre o que ia ver. Uma garota, forçada a um estágio escolar, descobre os podres de uma firma respeitada. Sim, um pouco é isso, mas o furo é mais embaixo. A garota faz seu aprendizado do mundo adulto, descobre que a firma, uma seguradora, está fraudando para não pagar os prêmios – Michael Moore, em seu documentário sobre o sistema de saúde dos EUA, já mostrara como as seguradores burlam os clientes e aí ele levava o bombeiro, herói do 11 de Setembro, numa lancha de Miami para se tratar em Cuba! – e, pior, descobre o papel de mamãe na fraude. Bem-vinda ao mundo adulto. O filme começa e termina com a jovem em cenas com o pai, separado da mãe. A primeira desencadeia uma briga do ex-casal. A do desfecho não tem arreglo. As mulheres, que tanto luta(ra)m por igualdade, repetem a trajetória dos homens e fazem toda sujeira. Os caras estão se eximindo, na deles, buscando formas alternativas nesse novo mercado feminista.O mini-diálogo final da filha com o pai é uma pequena obra-prima de nonsense. Papai acha tudo possível justamente porque não se compromete com nada. Confesso que vi A Garota do Armário como quem toma um tapa na cara e gostaria que outras pessoas também fossem reagissem assim. Junte a delação premiada de O Fantasma da Sicília, dos italianos Antonio Piazza e Fábio Grassadonia, com o Fitoussi e a sensação é de que vemos na tela o Brasil refletido desde o interior. As pessoas falam outras línguas, mas na idealização da Operação Lava-Jato, em Polícia Federal, a língua também é outra – o thriller made in Hollywood. Tentei ver o que os coleguinhas escreveram sobre o Fitoussi, mas não fui adiante. Na Folha online, a chamada – Indefinição anula boas intenções – me deu o maior tédio (bastou!) e, no Adoro Cinema, a tecla é de que o filme carece das nuances indispensáveis a um discurso político. Há quase 100 anos, na sua obra de propaganda (genial!), Sergei M. Eiseinstein já enfiava as larvas da carne podre na cara da gente para nos fazer tomar partido em ‘Potiônkin’. O debate da ‘crítica’ anda tão acirrado que gostaria de substituir a plateia de jornalistas políticos numa coletiva do presidente (sim, Temer) – respeitosos, porque ele faz gato e sapato – por outra de jornalistas de cinema. Quero ver se iam cair matando como piranhas, ou se é só lembrança das velhas assembleias de estudantes, em que todo mundo se acha dono da verdade e prefere perder a mão a entregar o anel. Havia bom público na sessão da tarde de A Garota do Armário. Gostaria que esse post ajudasse a multiplicar ainda mais a plateia, transformando o Fitoussi num sucesso apreciável como Sr. e Sra. Adelman. E, ah, sim, a atriz que faz a mãe é Emilie Dequenne. Em 1999, ainda era neófito em Cannes. Onze horas de uma manhã do festival. Havia sei lá que coletiva importante. E, no mesmo horário, havia a única sessão de um filme de uns tais irmãos Dardenne. A brasileirada foi toda à coletiva, eu fui ver Rosetta, na Salle Bazin, a menor das de imprensa do Palais. O filme é com a jovem Emilie Duquenne. Quando reencontrei o povo, cantei a bola – Palma de Ouro. Todo mundo se desesperou, tentando ver o filme. Não deu outra. E Emilie já era, continua sendo, uma atriz e tanto. E aí, vamos ver A Garota do Armário? No original é Maman a Tort, Mamãe errou. Tem mais a ver com as intenções.