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Belos e malditos, sobre Rip Torn, Ty Hardin e Robert Evans

Luiz Carlos Merten

02 de novembro de 2019 | 10h38

É curioso como o filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez Hollywood, a par de suas qualidades, teve o efeito de levar a imprensa especializada de língua inglesa a investigar as transformações no cinema norte-americano, nos anos 1960. Na sua edição de julho/agosto, Film Comment faz uma detalhada análise de uma figura hoje esquecida, Ty Hardin, como o modelo para o Rick Dalton de Leonardo DiCaprio no Tarantino. Belo e maldito. Ty, que morreu em 2017, aos 87 anos, pertenceu à geração de Rock Hudson, Tab Hunter, Troy Donahue, Rory Calhoun e Clint Walker. Teve o mesmo agente deles, um cara infame que submetia muitos de seus galãs a testes de sofá e acobertava a homossexualidade de astros, numa época em que Hollywood vivia no armário. Ty fez cinema, teve uma sobrevida na TV e no spaghetti western. Na nova edição de Film Comment nas bancas, de setembro/outubro, o resgate é de outra figura aparentemente secundária, mas icônica – Rip Torn, que morreu em julho, aos 88 anos. Devil may care. Lembrava-me de Rip Torn como marido de Geraldine Page e por seus papeis em filmes de Elia Kazan (Baby Doll) e Richard Brooks (O Doce Pássaro da Juventude). Duas adaptações de Tennessee Williams, dois papeis secundários, mas marcantes. Entre um e outro ele foi o Judas de Nicholas Ray em O Rei dos Reis, e o autor do texto, Nick Pinkerton, pergunta-se quem mais ele poderia interpretar num épico religioso hollywoodiano? Mais, talvez, do que James Dean e o próprio Marlon Brando, Torn foi o legítimo rebelde com causa. Pagou um preço por isso. Com a liberação dos costumes, e o relaxamento da censura em Hollywood, coube a Torn representar aquilo que Norman Mailer chamava de ‘prisioneiro do sexo’. Sua beleza quase obscena, como a de Ty Hardin, fez dele um elemento perigoso numa indústria que aceitava a mudança até certo ponto. Estou relendo uma Agatha Christie – mais uma, sempre uma – e num momento de Treze à Mesa o inspetor Japp observa a Hércules Poirot, sobre determinado suspeito, que homem nenhum deveria ser bonito assim. Me lembrava da fala, mas ela mais que nunca me bateu, nessa era de discussão sobre gêneros. Rip Torn fez nome no teatro, também como dramaturgo, e se tornou objeto de culto. E todo mundo se pergunta – o que teria ocorrido, se ele tivesse interpretado o advogado alcoólatra de Sem Destino, como Peter Fonda e Dennis Hopper queriam, originalmente? O personagem foi escrito para ele, e Jack Nicholson só assumiu como quebra-galho. Estava em New Orleans enviado pela BBS como produtor-executivo. Era o homem certo na hora certa. A partir dali, sua carreira turbinou. Não posso deixar de pensar também em Robert Evans, que morreu dia 29, aos 89 anos. Teve uma carreira medíocre como ator, era encrenqueiro nos sets. Chegou a ser demitido de uma produção, mas o produtor, com quem compartilhava mulheres e carreias de cocaína, cravou a frase célebre – The kid stays in the picture. Evans não apenas ficou no filme. Anos depois, assumiu a linha de produção da falida Paramount e, como produtor, iniciou a era dos filmes planejados e executados como bem calculadas operações de marketing – O Bebê de Rosemary, Love Story, O Poderoso Chefão. Arrebentou, mas, como nenhuma fórmula é infalível, fracassou com O Grande Gatsby, o que relativizou sua importância (e megalomania). Ainda produziu outro Roman Polanski, outro não, o maior – Chinatown. Era womanizer, mas, fosse porque a época era outra, nunca sofreu acusações de abuso nem assédio. Seria tudo consensual? Casou-se sete vezes, era notoriamente addicted em cocaína e se envolveu numa trama sórdida de assassinato do sócio durante a produção de Cotton Club – mas nunca foi indiciado. Não posso deixar de pensar que esses caras loucos forjaram a Nova Hollywood, e os que vieram depois – Steven Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese – foram os bons moços que levaram adiante o movimento e salvaram o cinemão.

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