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Bellocchio, sempre libero

Luiz Carlos Merten

19 de novembro de 2019 | 09h59

Queria ter visto ontem De Punhos Cerrados, ou melhor, revisto, na abertura da retrospectiva de Marco Bellocchio, no Festival de Cinema Italiano. Nesta terça, à noite, ocorre no Auditório Ibirapuera – de novo! – a abertura do festival, com O Traidor, do Bellocchio, que concorreu em Cannes, em maio. O curioso é que o festival, e a retrospectiva, só começam para o público na semana que vem. Bellocchio! Gosto muito desse cara, mas se tivesse de escolher um só filme dele, não seriam os standards e sim, Vincere, em que Giovanna Mezzogiorno está gloriosa como Ida, a primeira esposa, que Mussolini renegou, bem como o filho. Meninos e meninas, eu vi. I Pugni in Tasca, na estreia, há mais de 50 anos. O filme é de 1968. Bellocchio tinha 26 anos, eu, 23. Ainda fazia a Faculdade de Arquitetura, em Porto Alegre. Um filme-obsessão, obsessivo? -, que Bellocchio fez para justificar o estado de frustração permanente da adolescência. Uma viúva cega e seus quatro filhos. Três sofrem de epilepsia. Um desses, interpretado por Lou Castel, resolve matar a família – e não necessariamente ir ao cinema. Na cena chave, Alessandro, é seu nome, tem uma convulsão e Bellocchio substitui a trilha de Ennio Morricone pela ária Sempre Libera, da ópera La Traviata, de Verdi. Lembro-me do choque. Queria ter revisto para reavaliar. Na época, Alessandro (Bellocchio?) representava o impossível ponto de encontro da extrema aberração com a extrema lucidez. O arco que ia – vai? – de Verdi e Cesare Pavese ao cinema de Luchino Visconti. Queria debruçar-me mais sobre minhas lembranças. De Punhos Cerrados venceu algum prêmio importante do júri no Festival do Rio, e o da crítica, tenho certeza. Sérgio Augusto deve ter estado lá. Teria – tem – imagino que belíssimas lembranças para compartilhar. Quero voltar a BEllocchio, e a ‘esse’ Bellocchio, em particular. Agora, estou indo para uma cabine.

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