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Belchior, Demme… Vou vestir um roupa colorida por eles

Luiz Carlos Merten

01 Maio 2017 | 10h01

Corri bastante ontem porque queria ver filmes no É Tudo Verdade e tinha o jornal, com os textos – uma página inteira, mais os filmes na TV – que estão hoje no Caderno 2. Ao mesmo tempo, acompanhei o nervosismo da cobertura da morte de Belchior. Todo mundo se perguntando onde estava o cara, e era Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande. A terra do meu pai, Fredolino, aonde ainda tenho parentes, mas Santa Cruz ficou na minha infância. Ia tanto lá… Existem histórias de família, e de Santa Cruz,que me marcaram – mãe e filho, tia e primo, que morreram no mesmo dia, e não foi acidente. Em santa Cruz leciona, na pós-graduação da Arquitetura, minha ex, a Doris, mãe da Lúcia. E foi lá que Belchior se escondeu, quando todo mundo procurava por ele. Belchior! Dib leu algumas manifestações de pesar para mim. No Face, no Whatsapp. Belchior, admirável letrista, forneceu a trilha de toda uma geração. Sou apenas um rapaz/latino-americano… Eu era. Como Nossos Pais, na voz de Elis, uma interpretação visceral. Velha Roupa Colorida… Você não sente nem vê/
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/
Que uma nova mudança em breve vai acontecer/
E o que há algum tempo era novo jovem/
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer/
Falo de música e dou-me conta de que enterrei Jonathan Demme no jornal, mas não no blog. Jonathan Demme! Câncer do esôfago, 73 anos. Demme ganhou o Big Five em 1990, e antes dele apenas dois diretores haviam recebido os cinco Oscars principais – Frank Capra, em 1934, com Aconteceu Naquela Noite, e Milos Forman, em 1975, com Um Estranho no Ninho. Melhor filme, diretor, ator, atriz e roteiro. A maldição do Oscar – quem se lembra de Louise Fletcher, tão impressionante como a autoritária enfermeira-chefe do instituto psiquiátrico? Demme ganhou com O Silêncio dos Inocentes, e o filme, com sua psicanálise selvagem, violenta da América tem, certamente, seu valor, mas não é o ‘meu’ Demme. Prefiro muito mais Totalmente Selvagem, com aquela trilha de salsa-merengue em que Melanie Griffith subverte a vida do yuppie Jeff DAniels. Ou então O Casamento de Rachel, em que Anne Hathaway, louquinha, tem permissão para sair do instituto psiquiátrico para o casamento da irmã. A festa dura pelo menos um terço do filme e Demme prescinde dos diálogos, conta tudo por meio da imagem, e da música. Ele dizia que filmar a música é o cinema puro. Nada de roteiro. Tempo. Demme fez dois filmes sucessivos com Meryl Streep – Sob o Domínio do Mal, que podia não ser tão bom quanto o original de John Frankenheimer, mas não era indigno dele, e Ricki and The Flash – De Volta para Casa. Depois, ainda fez um documentário sobre Justin Timberlake e os Tennessee Kids, e se foi. Foram mortes que me entristeceram. Belchior, como Bob Dylan, sempre foi uma paixão de meu ex-colega e eterno amigo, assim espero, Jotabê Medeiros. Jota lança um livro sobre Belchior em setembro. É bom ficar de olho, porque, com a assinatura dele, terá de ser especial.