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Belas e tristes mocinhas de Botafogo

Luiz Carlos Merten

20 de março de 2013 | 16h14

Meu amigo Vilmar Ledesma me ligou ontem. Conversamos sobre alguns posts, sobre a vida (de ambos), mas o objetivo era que Vilmar, como eu, é devoto de Luiz Fernando Goulart por seu belo Marília e Marina, adaptado do poema de Vinicius, Balada das Duas Mocinhas de Botafogo. Vilmar sabia do meu amor pelo filme – em que Denise Bandeira é sublime – e também que sempre insdisti para que o Canal Brasil o encontrasse, restaurasse e exibisse. Por isso mesmo estranhou que o filme tivesse passado no canal brasileiro, dia 11, sem a menor referência de minha parte. Fui conferir na revista da Net e não achei, da mesma forma que os filmes do Canal Brasil não são listados no índice final – uma discriminação intolerável por parte da publicação. Está lavrado meu protesto e agora tenho de dar um jeito de rever Marília e Marina. Sempre penso, e não sei se um dia o farei, em  escrever um livro que seria a minha viagem pessoal pelo cinema brasileiro, nos moldes daquela que Martin Scorsese fez pelo cinema norte-americano. O ‘meu’ cinema brasileiro não tem necessariamente a ver com aquele que a maioria da crítica idolatra, e sobre o qual foi construída uma história oficial. Não consigo, por exemplo, me entusiasmar com Limite, de Mário Peixoto, ao qual prefiro, fazer o quê, Ganga Bruta, de Humberto Mauro. Não é que tenha de escolher entre um e outro, estou só dando exemplos. O ‘meu’ Eduardo Coutinho é Edifício Master, e não Cabra Marcado para Morrer, por mais fascinante que ache a personagem de Elizabeth Teixeira. Posso estar cometendo um sacrilégio, mas Selva Trágica, de Roberto Farias, Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, e Fome de Amor, de Nelson Pereira dos Santos, ocupam um lugar destacado no meu panteão particular. Marília e Marina me valeria o Caminho de São Tiago e já que adentrei pelas confissões sempre me diverti mais com Violeta Ferraz do que com Oscarito e Grande Otelo, não gosto do Matraga de Roberto Santos (mas considero a Íris Bruzzi de As Cariocas, no episódio dele, uma persona incomparável do cinema brasileiro, ou solmente comparável à Sara de Glauce Rocha em Terra em Transe, à Fernanda Montenegro de Central do Brasil e à Eliane Lage de Ravina, da qual guardo uma lembrança mitificada no filme de Rubem Biáfora). Não sei a quem interessaria a minha viagem pessoal, mas, justamente por ser pessoal e intransferível, cada vez que penso nela é como se voltassem as circunstâncias em que vi cada filme, o momento de minha vida. Selva Trágica eu vi num sábado à noite, com minha irmã Marlene e meu cunhado Mário, no antigo Cine Presidente, na Rua Benjamim Constant, bairro Floresta, em Porto Alegre. É um cinema que faz parte do meu imasginário, e não apenas pelos filmes. Maurício Sirotsky apresentava ali seu programa de auditório aos domingos. Foi onde vi e ouvi Elis Regina, Agostinho dos Santos, Elsa Laranjeiras, Elsa Soares, Leni Everson, Lúcio Alves e Wilma Bentivegna. Enquanto eu for vivo, Lúcio vai sempre cantar nos meus ouvidos ‘Essa canção/que eu canto ao luar/eu fiz, pensando em você…’ Da mesma forma, Wilma é eterna em outras serenatas, a do Adeus e a da Chuva. Tudo isso é tão particular. Cada um terá as suas madeleines, eu tenho as minhas.

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