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Bertolucci (1)/”Beije a Lúcia por mim”

Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2018 | 15h09

Havia antecipado, em meu post anterior, que teria um dia agitado, de volta a São Paulo. Não imaginei que essa agitação incluiria a morte de Bernardo Bertolucci. Eliana Souza, nossa pauteira do C2, foi quem me deu a notícia. Bertolucci morreu em Roma, aos 77 anos. Entrevistei-o três vezes – duas, presencialmente, em Cannes. A primeira, por Beleza Roubada e a segunda quando ele recebeu sua Palma de Ouro especial e apresentou a versão restaurada de O Último Imperador. Bernardo já estava preso à cadeira de rodas, consequência de uma malsucedida cirurgia de coluna. Lembro-me da sua frase – “Sempre gostei tanto de travellings, mal sabia que minha vida viraria um travelling, vendo o mundo no deslocamento dessa cadeira.” A terceira vez foi por telefone. Disse-lhe que era viscontiano de carteirinha, ele retrucou que era rosselliniano. Ainda argumentei que sua obra desmentia isso, que O Conformista, com toda a sua suntuosidade visual, poderia ser o filme mais viscontiano que Luchino não fez. E lhe disse que tinha uma filha chamada Lúcia, como a Lucy de Liv Tyler em Beleza Roubada. Ele se despediu de forma calorosa – ‘Dale un baccio per me, a Luccia.’ É difícil tentar resumir a importância de Bernardo Bertolucci, ainda mais que tenho de sair dentro de minutos, para entrevistar Murilo Benício e Débora Fallabela. Nos anos 1960, ele surgiu associado a Pier-Paolo Pasolini, de quem foi assistente em L’Ccatone e que escreveu La Commare Secca, a Comadre Seca, a Morte. Logo veio Prima della Rivoluzione, inspirado na frase de Talleyrand – “Quem não viveu antes da revolução não conheceu a delícia de viver.” Para mim, Bertolucci oscilava entre Visconti e Jean-Luc Godard. Partner, seu filme mais godardiano, não é dos melhores. Prefiro A Estratégia da Aranha e O Conformista, com seu primeiro tango em Paris. Morava em Porto Alegre e fui, naquelas caravanas a Montevidéu,pára ver Último Tango em Paris, quando o filme foi proibido no Brasil pela censura da ditadura, perdão, do ‘movimento’ militar. Vi Novecento em Buenos Aires, numa daquelas viagens de descoberta da América Nuestra, que fazíamos, Dóris e eu. La Luna, Tragédia de um Homem Ridículo, O Último Imperador, O Céu Que nos Protege, O Pequeno Buda, Beleza Roubada, O Assédio, Os Sonhadores, Io e Te. Bertolucci foi um esteta, como Visconti. Amava a revolução, mas talvez o grande tema que percorre sua obra seja o desejo. Il desiderio. Muitas vezes Bertolucci me fez feliz no escurinho do cinema. Grandes filmes que me descortinaram mundos – a Cidade Proibida, o deserto. Mas, no limite, a viagem era sempre para o interior, das pessoas e de mim mesmo. E nunca ninguém me disse aquilo – “Dê um beijo na sua filha, beije a Lúcia por mim.” Só um grande artista, um amoroso, um sonhador para ser tão sensível.