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Barrela no Cemitério de Automóveis, a vida sem véus

Luiz Carlos Merten

14 de outubro de 2019 | 09h42

Meu melhor espetáculo teatral do ano passado foi Navalha na Carne Negra, Plínio Marcos revisto por José Fernando Peixoto de Azevedo. O deste ano poderá muito bem ser Barrela, outro Plínio Marcos, agora pelo grupo Cemitério de Automóveis, com direção de Mário Bortolotto, que também atua – faz o ‘xerife’. Fui ver ontem com Orlando Margarido na sala da Frei Caneca e saí meio pasmo. Já estava bagunçado, internamente, tenho de admitir. A Angel, cachorra da minha filha – minha neta, como brinquei tantas vezes no blog -, está muito doente, pode ser que terminal. Quem não é cachorreiro pode achar ridículo, mas quem é sabe como essas coisas mexem com a gente. Desde sexta estou com uma bandagem no ouvido esquerdo. Um problema numa lavagem que tive de fazer para o exame de labirintite. Mais dor, uma sensação meio irreal de pisar em algodão. E eu havia visto o filme alemão sobre pedofilia – Mente Perversa -, o Ang Lee – Projeto Gemini. Tudo isso mexeu comigo. Barrela foi a primeira peça escrita por Plínio Marcos, quando tinha 23 anos. Inspira-se numa história real, um garoto de classe média que foi preso por um incidente banal, lançado numa cela com criminosos tarimbados, que abusaram dele. O guri caçou um a um e matou quatro deles. Será Plínio Marcos nosso maior dramaturgo? O maior brasileiro? Claro, temos Nelson Rodrigues, Nelson Rodrigues, Nelson Rodrigues, e outros, mas Plínio não representa o universo das (hipócritas) pessoas de bem. Coloca em cena gente pobre, marginalizada, desajustada, tratada feito bicho e que reage como bicho. Tirica, acuado pelos companheiros de cela, conta seu passado triste. Era um menino quando foi sodomizado no reformatório, mas agora é o primeiro a querer abusar do recém chegado, o carne nova no pedaço, a cadeia. A prisão como microcosmo social. Dib Carneiro Neto tirou uma peça (Salmo 91) de Estação Carandiru, de Drauzio Varela. Gabriel Villela criou um belíssimo espetáculo, mas era Gabriel, com sua herança barroca. Bortolotto tem as suas referências e vivências, mas seu conceito, o propósito básico, é servir ao texto, naquilo que tem de crueza. Palavras que ferem, movimentação intensa. O espaço ali dentro do Cemitério de Automóveis rompe limites. Estava na primeira fila, mas a sensação era de estar no centro da ação. Mais de uma vez os atores chegaram perto da minha perna, e eu não sabia mais se minha apreensão era pela violência do texto, da encenação ou de medo que, inadvertidamente, fosse machucado. Na cena do estupro, as luzes apagam-se. A caixa preta da sociedade brasileira. Encerrado naquele inferno. Li, no outro dia, uma nota na capa de jornal. Bolsonaro não usou este ano mais do que dez por cento – 12, teria de pesquisar – do fundo de gerenciamento das cadeias. O que já é um horror sempre pode piorar. Houve uma adaptação para cinema de Barrela. Lembrava-me do elenco – Paulo César Pereio, Marcos Palmeira, Marcos Winter como o garoto -, mas não do diretor, nem do ano. Marco Antônio Cury, 1990. Não creio que tenha me marcado. Teria me lembrado muito mais. Já a experiência da peça foi visceral. O naturalismo de Plínio Marcos transformado em cinema, à Walter Hill, com a paixão do cineasta pelo clichê, que ele reinventa como quem acaba de criar o ato de filmar. A aspereza do mundo que Marcos retrata e a encenação torna (tão) real. A vida, tristemente como ela é, não como deveria ser. O teatro que nos esfrega na cara, sem embelezamento, a própria miséria. Barrela seque até dia 27.